A Smart Powerr concluiu uma oferta direta registrada de dois milhões de dólares e o noticiário financeiro tratou o fato como se fosse marco corporativo. Quer dizer, dois milhões. Em qualquer economia minimamente saudável, isso seria uma linha perdida no rodapé de boletim setorial, não manchete. Mas vivemos num arranjo em que captar capital virou epopeia, e a razão para isso não está na incompetência das empresas, está na arquitetura de incentivos que estrangulou o mercado de capitais até ele virar caricatura de si mesmo.
Olha, oferta direta registrada é o nome técnico para uma operação em que a empresa vende ações diretamente a investidores institucionais sem o teatro do roadshow tradicional. Na teoria, deveria ser instrumento ágil, barato, eficiente. Na prática, virou refúgio de companhias pequenas que não conseguem acessar capital de forma decente porque o sistema inteiro foi desenhado para premiar quem já é grande, já tem balcão político, já navega o labirinto regulatório com lobistas pagos. O empresário que tenta crescer por mérito encontra um cipoal de exigências, taxas, compliance, custódia, intermediários, todos cobrando pedágio para que ele tenha o direito de oferecer seu próprio papel ao mercado.
Me diz uma coisa, alguém perguntou por que uma empresa do setor de energia precisa fazer oferta direta de dois milhões em vez de simplesmente tomar crédito num mercado bancário funcional? A resposta é desconfortável e ninguém quer dizer em voz alta. O crédito produtivo evaporou porque o dinheiro fácil dos bancos centrais inflou ativos financeiros, especulação imobiliária e dívida soberana, deixando a economia real, aquela que fabrica coisa, gera emprego e produz energia, com migalhas. Quem decidiu isso? Não foi o mercado. Foram comitês de tecnocratas que acreditam saber, sentados em torres de vidro, qual deve ser o preço do dinheiro para uma economia de bilhões de transações que eles jamais entenderão.
E há o lado tributário que ninguém menciona. Cada dólar que essa empresa levantou já foi taxado quando o investidor ganhou, será taxado quando a empresa lucrar, será taxado novamente quando distribuir dividendo, e ainda passará pelo pedágio inflacionário silencioso que corrói o poder de compra antes mesmo que o capital produza qualquer coisa. O governo, sempre ele, é sócio oculto de toda operação, sem ter posto um centavo de risco, sem ter trabalhado uma hora, sem ter inventado um parafuso. É o arranjo perfeito, o tipo de privilégio que reis medievais sonharam mas não conseguiram institucionalizar com a elegância burocrática contemporânea.
O fato de uma oferta dessa magnitude virar notícia revela mais sobre o estado da economia global do que cem relatórios do Fundo Monetário. Sinaliza um mercado onde liquidez genuína secou, onde a poupança real foi substituída por crédito sintético, onde empresas médias precisam fazer malabarismos jurídicos para acessar o que antigamente era oxigênio comum do capitalismo. Não é progresso, é o resultado previsível de décadas tratando o capital como inimigo público e o empreendedor como suspeito padrão. A próxima geração herdará uma economia em que captar dois milhões será considerado triunfo, e ninguém saberá explicar por que o avô captava cem vezes mais sem precisar de prêmio Nobel para celebrar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.