A Smith & Nephew, fabricante britânica de próteses ortopédicas e equipamentos cirúrgicos, comunicou ao mercado que vai gastar 250 milhões de dólares comprando suas próprias ações de volta. O anúncio veio embrulhado naquela linguagem corporativa asséptica que finge dizer alguma coisa enquanto não diz nada, "retorno ao acionista", "confiança nos fundamentos", "geração consistente de caixa". Quer dizer, traduzindo do corporativês para o português, a empresa decidiu que a melhor coisa a fazer com um quarto de bilhão de dólares não é desenvolver um novo implante, não é abrir uma fábrica, não é contratar engenheiros, não é cortar o preço da prótese para o aposentado que precisa caminhar. É comprar o próprio reflexo no espelho.
Olha, recompra de ações não é necessariamente um pecado. Quando uma empresa genuinamente não tem onde alocar capital com retorno superior, devolver ao acionista é honesto. O problema é que isso virou epidemia, virou tique nervoso, virou método universal de maquiar lucro por ação sem precisar fazer absolutamente nada de produtivo. Você tira ações de circulação, divide o mesmo lucro por menos cabeças, e voilà, o earnings per share sobe sozinho. O CEO bate meta, recebe o bônus atrelado ao indicador, e o conselho aplaude. Ninguém produziu nada. Ninguém inventou nada. Ninguém serviu o consumidor melhor. Pura aritmética travestida de estratégia.
Me diz uma coisa, esse capital saiu de onde? Saiu do caixa operacional, ou seja, do que a empresa lucrou vendendo prótese de joelho, parafuso de coluna, instrumento cirúrgico para hospital público e privado mundo afora. Esse mesmo dinheiro poderia ter virado pesquisa de material biocompatível mais barato, poderia ter financiado linha de produção em país emergente, poderia ter reduzido o custo final do procedimento ortopédico que hoje quebra plano de saúde e fundo previdenciário de hospital. Em vez disso, vai engordar o preço da ação por algumas semanas, satisfazer fundo de pensão que precisa mostrar performance no relatório trimestral, e premiar a executivos cujo pacote de remuneração está atado ao múltiplo da bolsa.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir em voz alta. Por que tantas multinacionais descobriram, simultaneamente, que recompra é a melhor alocação de capital? Não foi coincidência espiritual. Foi consequência direta de duas décadas de juros artificialmente baixos, dinheiro barato jorrando dos bancos centrais, crédito empresarial subsidiado pela impressora monetária. Quando o custo de capital é falso, todo cálculo econômico fica falso junto. A empresa não precisa investir em produtividade real porque é mais lucrativo brincar com a própria estrutura de capital. O resultado de longo prazo é uma economia ocidental que parece pujante na bolsa e definha na fábrica, com produtividade estagnada, inovação concentrada em meia dúzia de monopólios, e tudo o mais virando casino financeiro.
O setor de saúde torna o caso ainda mais picante. Smith & Nephew opera num mercado onde a demanda é praticamente inelástica, gente envelhecendo precisa de prótese, hospital precisa de instrumento, governo paga, plano paga, paciente paga do bolso quando o resto falha. É um mercado capturado por regulação sanitária pesada, por barreira de entrada altíssima, por contratos públicos opacos. A margem é gorda justamente porque o concorrente novo não consegue entrar. E o que a empresa faz com a margem gorda? Não baixa o preço da prótese, não amplia capacidade. Recompra ação. A pergunta que ninguém faz é se o paciente que pagou caro pelo implante sabe que parte do que ele desembolsou virou combustível para o gráfico de Wall Street do trimestre.
O mais cômico, ou trágico, dependendo do humor de quem lê, é o coro analista repetindo que isso é "criar valor para o acionista". Não cria valor nenhum. Redistribui valor existente, transfere de quem vendeu para quem ficou, comprime o denominador da equação. Valor de verdade vem de produzir algo que antes não existia, ou produzir o mesmo por menos, ou servir alguém que não era servido. Recompra não faz nada disso. É contabilidade criativa com selo de respeitabilidade. E enquanto a engenharia financeira for mais lucrativa que a engenharia mecânica, o ocidente vai continuar produzindo PowerPoint enquanto o oriente produz coisa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.