A notícia chega com aquela embalagem polida de sempre. Luke Wood, ex-presidente da Beats, agora ocupa uma cadeira no conselho da Snap Inc, e o mercado deve aplaudir de pé porque, afinal, trata-se de um nome do showbiz tecnológico, alguém que vendeu fones caros para adolescentes durante uma década e meia. Quer dizer, se o problema da Snap fosse falta de glamour no conselho, talvez essa nomeação resolvesse algo. Mas o problema da Snap nunca foi esse. O problema da Snap é estrutural, e nenhuma quantidade de celebridades sentadas em torno de uma mesa de mogno em Santa Monica vai consertar uma companhia que queima caixa há anos, que perde usuários para concorrentes mais ágeis, e cuja estrutura de governança foi desenhada para que os fundadores tenham voto eterno enquanto o acionista comum tem ações classe A sem direito a nada.

Olha, é preciso entender o teatro. Empresas em dificuldade adoram anunciar reforços de conselho porque é a forma mais barata de simular ação. Não custa demitir ninguém, não exige cortar custos, não obriga a admitir que o modelo de negócio talvez não fosse genial, era apenas dinheiro fácil dos juros zero em 2020 financiando aplicativos que ninguém precisava. Trazer um nome conhecido para o board é o equivalente corporativo de pintar a fachada de um prédio com problemas estruturais. A foto sai bem no relatório anual, o press release viraliza nos portais de negócios, e os analistas que vivem de manter relacionamento com investor relations escrevem que é um sinal positivo. Sinal positivo de quê, exatamente, ninguém especifica.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um conselheiro independente impediu uma má decisão estratégica em qualquer Big Tech americana? A resposta honesta é praticamente nunca. Os conselhos dessas empresas funcionam como clubes de cavalheiros que se ratificam mutuamente, validam bônus astronômicos para executivos que destroem valor, e aprovam recompras de ações com dinheiro que deveria estar pagando dividendos ou sendo reinvestido em produto. Wood vem do mundo do entretenimento de luxo, vendeu a Beats para a Apple por bilhões e desde então circula em conselhos como quem coleciona convites para galas. Não há nada de errado com isso individualmente. O que é desonesto é vender essa rotação de cadeiras como se fosse governança corporativa séria.

A Snap, vale lembrar, tem uma estrutura acionária que faria corar qualquer defensor genuíno do mercado livre. Evan Spiegel e Bobby Murphy controlam praticamente todos os votos através de ações classe C, enquanto o investidor comum compra papéis classe A que não valem absolutamente nada em assembleia. É o capitalismo de fachada, aquele em que se vende para o público a história da democracia acionária enquanto se mantém um regime feudal nos bastidores. Trazer um conselheiro com sobrenome conhecido para esse arranjo é como colocar um árbitro reserva em uma partida onde os donos do time também são os juízes principais e o dono do estádio.

O que ninguém vai dizer nos próximos dias é que essa nomeação não muda absolutamente nada na dinâmica fundamental. A Snap continuará apostando em óculos de realidade aumentada que ninguém compra, continuará tentando convencer anunciantes de que sua audiência adolescente vale o que cobra, e continuará dependendo de manter o entusiasmo dos analistas vivo até a próxima rodada de resultados decepcionantes. Wood receberá seus honorários de conselheiro, suas opções de ações, e participará de algumas reuniões trimestrais onde ratificará o que os fundadores já decidiram. É assim que o jogo funciona, e fingir que é outra coisa ofende a inteligência de quem está observando.

No fim do dia, o investidor minoritário precisa entender uma verdade simples. Quando uma empresa anuncia mudanças de governança em vez de mudanças de estratégia, geralmente é porque não tem estratégia para mudar. A maquiagem está pronta, o photoshoot foi agendado, o press release está no ar. Resta saber por quanto tempo o mercado vai continuar comprando o ingresso para esse espetáculo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.