Repare no padrão, porque ele se repete há mais de um século com a precisão de um relógio suíço. A inflação corrói o salário, o desemprego encosta na esquina, o supermercado vira ginástica de calculadora, e eis que surge na televisão o redentor de terno amarrotado prometendo congelar preços, taxar os ricos, estatizar o que der na telha e distribuir o resto numa carruagem de bondades. O eleitor desesperado morde a isca. E o pior: morde de novo na eleição seguinte, mesmo depois de quatro anos engolindo as consequências da primeira mordida.

O truque é antigo e funciona porque explora uma assimetria perversa entre o que se vê e o que não se vê. O cheque do benefício social tem rosto, nome e CPF; o emprego destruído pelo imposto que financiou aquele cheque é invisível, anônimo, estatisticamente diluído. A fábrica que não abriu porque o capital fugiu do confisco regulatório não aparece em nenhum telejornal. O jovem que não foi contratado porque o salário mínimo virou camisa de força não tem entrevista no horário nobre. Já o beneficiário do programa governamental sorri na propaganda, abraça o ministro, declara gratidão eterna. A matemática eleitoral é brutalmente simples: vencer quem você vê é mais fácil do que defender quem você não vê.

E aqui mora a engrenagem mais cínica de toda essa colheita farta. Cada intervenção fracassada gera demanda por uma nova intervenção. Congelou o preço da gasolina e faltou combustível? A culpa, claro, é da especulação, do mercado, dos atravessadores; logo, precisamos de mais controle, mais fiscalização, mais decreto. Imprimiu dinheiro até estourar a inflação? A culpa, evidentemente, é do supermercado ganancioso; logo, precisamos tabelar o feijão. O remédio para o veneno é sempre uma dose maior do mesmo veneno, prescrita pelo mesmo médico que envenenou o paciente. E o paciente, anestesiado pela retórica do cuidado, estende o braço para a próxima injeção.

Siga o dinheiro e o teatro se desmonta sozinho. Quem ganha com o subsídio à indústria nacional não é o operário da fábrica, é o dono da fábrica que financiou a campanha do deputado que aprovou a lei. Quem ganha com a estatização do banco não é o cliente, é a casta de apadrinhados que vai ocupar os cargos comissionados. Quem ganha com o programa social bilionário não é apenas o beneficiário final, é toda a engrenagem de operadores, intermediários, consultorias, ONGs parceiras e gabinetes paralelos que vivem da gestão da miséria alheia. Acabar com a pobreza seria um péssimo negócio para quem construiu uma carreira inteira administrando-a.

Há ainda o aspecto mais sutil, e talvez o mais devastador no longo prazo: o cidadão vai sendo lentamente desacostumado de viver sem tutela. Primeiro o governo decide o preço do pão, depois o conteúdo do que se ensina aos filhos, depois o que se pode dizer nas redes sociais, depois o que se pode comer, beber, pensar. A liberdade não cai por golpe militar de tanque na avenida; ela vai escorrendo pelo ralo da burocracia, gota a gota, regulamento por regulamento, formulário por formulário, até que um dia o sujeito acorda morando numa jaula confortável e acha que aquilo é o normal. Pior, acha que aquilo é proteção.

E é por isso que o ciclo se renova. Quando o experimento desmorona, e ele sempre desmorona, o culpado nunca é o experimentador. A culpa é da herança maldita, do capitalismo selvagem que sabotou a obra, da conspiração internacional, do clima, do azar, de qualquer coisa que não seja a doutrina sagrada. O fracasso vira combustível para a próxima onda redentora, agora com promessas ainda mais radicais, porque desta vez, juram, vai dar certo. Não vai. Nunca dá. Mas dá votos, e no fim do dia é só disso que esse tipo de gente precisa para continuar comendo no melhor restaurante da cidade enquanto explica na entrevista por que o seu feijão sumiu da prateleira.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.