Olha o anúncio: uma ação da B3, escolhida por inteligência artificial, sobe quase vinte por cento no mês enquanto o Ibovespa apanha. A manchete é desenhada com precisão cirúrgica para fisgar o sujeito que abriu o app do banco, viu a carteira no vermelho e procura desesperadamente alguém, qualquer um, que diga onde está o ouro escondido. E aí aparece a máquina, oráculo digital, prometendo o que nenhum gestor de carne e osso teve coragem de prometer nos últimos cem anos de bolsa.

Quer dizer, vamos ao básico que ninguém quer encarar. Performance passada de um mês não diz absolutamente nada sobre performance futura, e qualquer um que tenha visto duas crises de perto sabe disso. Pegue mil ações listadas em qualquer bolsa do mundo, separe as cinquenta que mais subiram no último mês, e você terá cinquenta histórias maravilhosas para vender em manchete. Não precisa de algoritmo, precisa de seleção amostral viciada e cara de pau. O que a tal IA fez foi olhar para trás e apontar o cavalo que já cruzou a linha de chegada, fingindo que previu a corrida.

Me diz uma coisa, se essa inteligência artificial realmente fosse capaz de identificar consistentemente a ação que sobe vinte por cento ao mês, por que diabos os donos dela estariam compartilhando o segredo com o assinante de portal financeiro? A resposta é óbvia, e ninguém quer dizer em voz alta: o negócio não está em acertar a ação, está em vender o curso, o relatório, a assinatura premium, o sinal exclusivo. Siga o dinheiro e você não acha a ação milagrosa, acha o intermediário gordo cobrando taxa para te empurrar fumaça embrulhada em código.

Tem ainda o componente cultural da coisa, que é o mais perverso. A gente vive numa época em que a palavra algoritmo virou amuleto religioso. Diz que foi a IA que escolheu e o sujeito acredita como o camponês medieval acreditava no padre que lia o latim. Não importa quais variáveis, qual horizonte, qual base de treinamento, qual viés de sobrevivência embutido nos dados. A máquina disse, a máquina sabe. É exatamente o tipo de servidão voluntária que a tradição liberal vem denunciando há trezentos anos, só que agora com interface bonita e gráfico animado.

E o pior, o que ninguém vê porque ninguém olha, é o custo invisível dessa palhaçada toda. Cada pequeno investidor que entra numa ação porque viu manchete de IA milagrosa é um sujeito que está deixando de estudar balanço, de entender o negócio que está comprando, de assumir responsabilidade pela própria escolha. Está terceirizando o juízo para uma caixa preta que não responde por nada. Quando der errado, e vai dar, ele não terá aprendido absolutamente nada, porque nunca foi ele quem decidiu. Foi a máquina. A máquina não tem CPF, não tem patrimônio, não tem vergonha na cara.

O mercado livre é a instituição mais maravilhosa que a humanidade já produziu para alocar capital, mas ele exige uma coisa que nenhum aplicativo entrega: cabeça funcionando do lado de cá da tela. Investir é exercício de propriedade privada, de julgamento individual, de assumir o ônus das próprias decisões. No dia em que você delega isso a um algoritmo vendido em manchete de portal, você não está usando o mercado, está sendo usado por quem vende a ilusão de que existe atalho. E atalho, no mercado como na vida, é o caminho mais curto entre o seu bolso e o bolso alheio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.