Vamos começar pelo óbvio que ninguém quer enxergar. Uma matéria circula prometendo que uma ação selecionada por inteligência artificial está subindo quase 25% no mês, e o subtexto é aquele de sempre, o sujeito comum, sufocado por um Ibovespa que patina há trimestres, deveria abandonar o próprio cérebro e entregar o patrimônio a um sistema que nem o autor da matéria sabe explicar como funciona. Quer dizer, a mesma classe que passou três décadas dizendo ao brasileiro que ele não entende de economia agora descobriu que pode vender a ele um robô que entende por ele. O negócio é redondo.
Olha, todo ciclo de euforia financeira tem o seu totem. Já foi a tulipa, já foi a ferrovia, já foi a ponto-com, já foi o subprime empacotado com selo de qualidade pela agência de risco que vivia dos bancos que ela mesma avaliava. Agora é o algoritmo. A diferença é apenas estética. O mecanismo psicológico é idêntico, alguém promete retorno acima da média sem risco proporcional, e a multidão, esquecida de que retorno extraordinário é sempre filho de risco extraordinário ou de informação privilegiada, corre como criança atrás de carro de sorvete. Vinte e cinco por cento em um mês não é investimento, é loteria com marketing melhor.
Me diz uma coisa, quem ganha dinheiro de verdade com essa história? Não é o leitor do portal, isso é certeza matemática. Ganha o veículo que vende clique, ganha a corretora que cobra spread em cada operação induzida pela manchete, ganha o fundo que já estava posicionado antes da recomendação virar pública e que agora descarrega papel na cabeça do entusiasta de última hora. A trilha do dinheiro nunca falha, basta seguir. O sujeito que vai pagar a festa é sempre o mesmo, o pequeno investidor que confundiu volatilidade com competência alheia.
E há uma camada mais profunda nessa idolatria do algoritmo, uma renúncia silenciosa à própria capacidade de pensar. O preço no mercado é informação destilada de milhões de decisões dispersas, ninguém detém o quadro completo, nenhum modelo, nenhuma máquina, nenhum comitê. Quando você delega o juízo a um sistema fechado, você está fazendo exatamente o que o planejador central faz, só que com o seu próprio dinheiro, supondo que existe uma mente, humana ou eletrônica, capaz de antecipar o que por definição é imprevisível. A arrogância de achar que se decifrou o mercado é justamente o que precede a quebra.
Tem ainda o detalhe inflacionário que ninguém quer discutir. Quando o juro real cai, quando a impressora trabalha, quando o crédito barato se espalha, ativos sobem. Não porque a empresa virou melhor, mas porque a régua encolheu. Boa parte dos vinte e cinco por cento celebrados em manchete pode ser apenas o reflexo de uma moeda mais fraca, e o investidor sai achando que ganhou quando, em poder de compra real, apenas correu para não perder. É o velho truque, distribuir papel pintado e chamar isso de prosperidade. O bust dessa festa, como em toda festa financiada por crédito artificial e euforia tecnológica, não pergunta a data, apenas chega.
A liberdade econômica de verdade não está em obedecer a um oráculo de silício vendido por portal de notícias, está em estudar o próprio negócio, entender o que se compra, aceitar o risco com os olhos abertos e nunca, jamais, terceirizar a responsabilidade pelo próprio patrimônio para uma caixa que ninguém abre. Quem entrega o leme a piloto automático em mar revolto não está investindo, está rezando. E mercado, ao contrário do céu, não atende prece de quem desligou o cérebro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.