O SoftBank anunciou que vai emitir mais de onze bilhões de dólares em títulos de dívida para bancar sua obsessão declarada pela OpenAI. Repare no verbo: emitir dívida. Não é lucro operacional, não é caixa acumulado, não é reserva estratégica. É promessa de pagamento futuro sendo trocada por dinheiro presente, e esse dinheiro presente vai direto para uma empresa que ainda não descobriu como transformar entusiasmo em rentabilidade sustentável. Masayoshi Son já fez esse filme antes com a WeWork, e o final todo mundo lembra. A diferença é que agora os zeros são maiores e a plateia decidiu que dessa vez vai dar certo porque desta vez é diferente. Nunca é.

Quer dizer, alguém precisa fazer a pergunta que ninguém do mercado quer fazer em voz alta. De onde sai o rendimento que vai pagar esses títulos? A OpenAI, apesar do faturamento crescente, ainda opera com prejuízos colossais, sustentada por rodadas de capital que precisam ser cada vez maiores para manter a máquina rodando. É um esquema onde cada nova injeção justifica a anterior, e onde o valuation sobe não porque a empresa gera valor, mas porque outro investidor topou pagar mais caro que o último. Isso tem nome técnico na história econômica, e o nome não é bonito.

O que se vê é o anúncio grandioso, os headlines em fonte 72, os analistas de terno explicando que estamos diante da revolução tecnológica do século. O que não se vê é o custo de oportunidade desses onze bilhões que deixarão de financiar mil pequenas empresas rentáveis para alimentar uma única aposta megalomaníaca. O que não se vê é o efeito dominó caso a OpenAI não entregue os retornos prometidos nos prazos prometidos. O que não se vê é que esse tipo de concentração de capital em ativos especulativos é exatamente o combustível dos ciclos de expansão artificial que sempre, sem exceção, terminam em correção brutal.

E aqui entra o detalhe que os entusiastas fingem não ver. O dinheiro que vai financiar essa emissão não vem do nada. Vem do sistema de crédito global inflado por anos de juros artificialmente baixos, vem de bancos centrais que transformaram poupança em maldição e endividamento em virtude. Quando o custo do capital é distorcido pela mão pesada dos planejadores monetários, projetos que jamais passariam num teste racional de retorno viram cavalos de corrida. O SoftBank não está apostando com dinheiro do SoftBank. Está apostando com dinheiro que existe porque a impressora existe.

Siga a trilha. Os credores compram os títulos acreditando que o SoftBank honrará a dívida. O SoftBank honrará a dívida se a OpenAI valorizar. A OpenAI valorizará se continuar recebendo aportes que sustentem seu queima de caixa. Os aportes continuarão vindo enquanto a narrativa da inteligência artificial redentora se sustentar. E a narrativa se sustenta enquanto ninguém for obrigado a mostrar resultado. Retire qualquer elo dessa corrente e o edifício inteiro balança. É engenharia financeira construída sobre fé, e fé não é demonstração contábil.

A lição, para quem quiser aprender antes que a conta chegue, é antiga e desconfortável. Toda vez que o mercado se convence de que uma nova tecnologia justifica ignorar as leis básicas da geração de valor, a correção posterior é proporcional à euforia anterior. Os japoneses aprenderam isso nos anos noventa e passaram três décadas pagando o boleto. Os americanos aprenderam em 2000 com as pontocom, aprenderam de novo em 2008 com o subprime. Aparentemente, alguns precisam aprender mais uma vez. E quando aprenderem, não serão eles que pagarão a conta. Serão os poupadores, os aposentados, os pequenos investidores que confiaram nos gestores de fundos que confiaram nos analistas que confiaram no consenso. O consenso, como sempre, estará errado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.