A SoftBank Group acaba de tomar da Toyota o posto de empresa mais valiosa do Japão, e a imprensa econômica trata o evento como se fosse uma passagem de bastão entre eras, o velho industrial cedendo lugar ao novo apóstolo da inteligência artificial. Olha, é tentador comprar a narrativa. A Toyota fabrica carros, coisa pesada, suja, com fornecedores que reclamam, sindicatos que negociam, aço que enferruja. A SoftBank fabrica participações em empresas que fabricam expectativas. Uma vende motor, a outra vende sonho. E no mundo de hoje, sonho rende mais que motor, pelo menos até a hora em que rende menos.
Quer dizer, vamos ao que está embaixo do tapete. A SoftBank é, no fundo, um fundo de hedge alavancado disfarçado de conglomerado de tecnologia, cujo combustível foi e continua sendo o juro perto de zero que o Banco do Japão sustentou por mais de duas décadas. Quando o dinheiro custa nada, qualquer aposta parece genial; quando custa alguma coisa, o gênio começa a parecer apostador. Cada centavo do salto recente vem da febre de inteligência artificial e da exposição massiva à Arm Holdings e à OpenAI, ativos cujos múltiplos só fazem sentido num mundo onde a impressora dos bancos centrais nunca para. A Toyota, enquanto isso, precisa lucrar vendendo carros para gente que trabalha, e gente que trabalha está sentindo o peso da mesma inflação que infla o valor da SoftBank.
Me diz uma coisa, o que se vê é a manchete. O que não se vê é o mecanismo. Décadas de afrouxamento monetário transformaram o Japão num laboratório do que acontece quando se vicia uma economia inteira em juro artificial. O capital que deveria estar sendo alocado por milhões de poupadores e empreendedores, cada um com seu pedacinho de conhecimento sobre o que faz sentido produzir, foi sequestrado por um pequeno comitê de doutores que decidiu, em nome de todos, que o preço do dinheiro seria zero. O resultado dessa pretensão é exatamente o que se vê agora: uma empresa que não fabrica quase nada de tangível vale mais que a empresa que ensinou o planeta a produzir com eficiência.
Siga a trilha. O Banco do Japão segura juros, governo emite dívida monstruosa, fundos como a SoftBank captam barato, despejam em ativos de tecnologia, esses ativos sobem porque há dinheiro de sobra perseguindo escassez fabricada, e a manchete celebra a vitória do moderno sobre o arcaico. Ninguém menciona o aposentado japonês cuja poupança rende negativo em termos reais há vinte anos, sustentando o festival. Ninguém menciona que a Toyota, com toda sua chatice industrial, paga salário, treina gente, transfere tecnologia, sustenta cidades inteiras no interior japonês onde a fábrica é o coração da comunidade. A SoftBank sustenta apartamentos em Mônaco e escritórios em Singapura.
E há ainda a parte mais delicada, que é o caráter do arranjo. Julgue pelo que faz, não pelo que diz. A Toyota constrói durante setenta anos, sobrevive a guerra, a crise do petróleo, a tsunami, a recall global, e sai do outro lado fazendo carro melhor. A SoftBank constrói durante quarenta anos, sobrevive porque o juro nunca subiu de verdade, e a cada ciclo precisa de uma nova narrativa para justificar o múltiplo do trimestre, ontem internet, hoje inteligência artificial, amanhã sabe-se lá o quê. Uma é empresa, a outra é apólice de aposta no próximo modismo financiado por dinheiro alheio. Que o mercado dê o troféu para a segunda diz menos sobre as empresas e mais sobre o tipo de economia que se construiu.
O dia em que o juro voltar a ter preço de verdade, e ele sempre volta, a manchete será outra. Não porque a inteligência artificial tenha falhado, mas porque o cassino sempre fecha quando alguém finalmente pede para ver as cartas. Enquanto isso, vale lembrar uma verdade antiga que ninguém mais quer repetir: riqueza de verdade não se imprime, se produz; e quem aposta na impressora sempre acaba descobrindo, atrasado, que o papel não vale o que diz que vale.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.