Olha o truque de mágica em câmera lenta: o BRB, banco estatal do Distrito Federal, gerido com a competência habitual de quem usa dinheiro alheio, chega ao ponto do colapso, e a "solução" anunciada pelo secretário do Tesouro é um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos com fiança de um sindicato de bancos privados. Tradução para quem ainda não foi anestesiado pelo economês: o fundo que existe teoricamente para proteger o correntista comum vai bancar o rombo de um banco quebrado por má gestão política, e os bancos privados entram como avalistas de uma operação que, se desse certo sozinha no mercado, não precisaria de avalista nenhum. Se a coisa fosse sadia, ninguém precisaria do FGC. Se ninguém precisasse do FGC, o Durigan não estaria dando entrevista.
Me diz uma coisa: por que é que sempre, sem exceção, quando uma instituição estatal apodrece, a fatura aparece embrulhada em papel celofane de "mercado"? A resposta é simples e quase ninguém quer encarar. O FGC é alimentado por contribuição compulsória dos bancos, que repassam o custo para você, correntista, na tarifa, no spread, no juro do cheque especial. Quer dizer, quando dizem que "o setor privado vai bancar", o setor privado é uma ficção contábil: o pagador final é o cidadão que abre conta corrente, que toma crédito, que paga IOF. O sindicato de bancos entra como fiador porque sabe que, se o BRB for desmontado no grito, o pânico contamina o sistema inteiro e o próximo na fila do socorro pode ser ele mesmo. É o clube do bolinha protegendo o clube do bolinha, com o cidadão segurando a vela.
E aqui mora a parte que ninguém comenta na manchete. O BRB não quebrou por azar nem por crise sistêmica. Quebrou porque é um banco usado historicamente como caixa eletrônico de governos locais, com diretoria indicada por afinidade política, expansão temerária para fora do Distrito Federal nos últimos anos, e exposição a operações que nenhum banco privado tocaria sem três comitês de risco e um exorcista. Quando o Estado opera um banco, ele não opera um banco; opera uma usina de favores travestida de instituição financeira. E quando a usina explode, vem o ritual conhecido: socializa-se o prejuízo, privatiza-se o silêncio sobre as responsabilidades, e ninguém é demitido, ninguém é processado, ninguém devolve um centavo.
A engenharia do socorro é genial no que tem de pior. Repare na arquitetura: o FGC empresta, o sindicato de bancos garante, o Tesouro orquestra, e o nome "contribuinte" não aparece em lugar nenhum do comunicado. É como o truque do mágico que faz o lenço sumir: você sabe que o lenço está em algum lugar, mas o feixe de luz mira a mão errada. Cada vez que se pratica essa engenharia, o sistema bancário inteiro aprende a mesma lição perigosa: pode ousar, pode quebrar, pode malversar, que no final aparece um arranjo elegante para limpar a sujeira. É o que se chama, na literatura mais honesta sobre economia, de risco moral. E não há risco moral mais letal do que aquele instalado dentro de um banco estatal, porque ali o gestor não responde nem ao acionista, nem ao mercado, nem ao Ministério Público com a devida coragem.
O que o anúncio do Durigan revela, no fundo, é a impossibilidade aritmética do projeto estatista brasileiro. Bancos públicos foram vendidos por décadas como instrumento de desenvolvimento regional, como ferramenta de inclusão, como braço financeiro do bem comum. Na prática, são lavanderias institucionais de incompetência, e quando o ciclo se fecha, quem paga é exatamente quem o discurso prometia ajudar: o pequeno correntista, o tomador de crédito, o aposentado que tem o salário depositado lá porque o governo do DF mandou. A promessa era proteger o povo do mercado selvagem; o resultado é proteger a casta política do próprio fracasso, usando o povo como almofada.
E ainda terão a cara de pau de chamar isso de "solução de mercado". Solução de mercado, no mundo real, tem nome curto e brutal: insolvência, leilão, venda dos ativos saudáveis, demissão dos responsáveis, prejuízo absorvido por quem apostou errado. O que está sendo costurado é o oposto disso, é a perpetuação do arranjo que produziu a doença, dressed up em vocabulário técnico para que o jornalista preguiçoso reproduza no telejornal das oito como se fosse boa notícia. A doença não é o BRB ter quebrado. A doença é existir um BRB para quebrar. E enquanto a gente comprar a fábula de que socorro com fiança de banco privado é mágica financeira sem custo, a próxima quebradeira já está sendo gestada em algum gabinete, com selo de "interesse público" e endereço para a sua conta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.