A Sony anunciou nesta semana a nova geração do Reon Pocket, aquele curioso aparelhinho de ar-condicionado que se acopla à nuca do usuário e promete refrigerar o corpo humano como se fosse uma central de servidores ambulante. O modelo, batizado Reon Pocket Pro Plus, traz vinte por cento mais capacidade de resfriamento em relação à versão anterior, design refinado para abraçar melhor o pescoço e melhorias no aplicativo de controle. Lançado originalmente em 2019, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o produto agora chega à sua iteração mais madura, justamente quando o resto do planeta debate se transformar o ar-condicionado em moeda climática é ou não pecado mortal.

Há algo de profundamente japonês nessa engenhoca, e digo isso como elogio. Enquanto boa parte da indústria de eletrônicos do mundo virou uma feira de aplicativos genéricos com hardware terceirizado, a Sony continua resolvendo problemas reais com a mesma obsessão monástica que produziu o Walkman em 1979. Aquilo também foi ridicularizado no início, lembre-se. Quem ia querer carregar música no bolso? Quem ia querer um ar-condicionado no pescoço? O ridículo de hoje costuma ser o óbvio de amanhã, e essa lei vale para quase toda invenção genuína desde a roda.

O detalhe técnico merece atenção, porque revela a diferença entre quem fabrica e quem apenas vende. O Reon Pocket usa o efeito Peltier, um princípio termoelétrico descoberto no século dezenove, capaz de transferir calor entre duas placas quando uma corrente atravessa a junção entre dois materiais distintos. Não é mágica, não é inteligência artificial, não é blockchain. É física aplicada com paciência industrial. A Sony pegou um efeito conhecido há quase duzentos anos e o miniaturizou ao ponto de caber num colar discreto, com bateria, controle de temperatura e sensor ambiental. Isso é engenharia de verdade, do tipo que não vira capa de revista porque não combina com a estética dos palcos de keynote.

Repare na assimetria geopolítica do gesto. Enquanto os burocratas climáticos europeus discutem proibir o ar-condicionado doméstico em nome da virtude verde, e enquanto a maior parte da chamada inovação americana se resume a criar mais um aplicativo de entrega ou outro chatbot tagarela, os japoneses simplesmente desceram à oficina e fabricaram um dispositivo que resolve o calor sem pedir permissão a ninguém. É o velho contraste entre quem produz e quem regula, entre quem fabrica ferro e quem fabrica regulamentação. Civilizações sérias preferem o primeiro grupo. As decadentes apostam no segundo.

Vale, contudo, registrar um incômodo natural diante desse tipo de produto. Quanto mais o homem terceiriza funções básicas do próprio corpo para acessórios eletrônicos, mais frágil ele se torna em sua autonomia biológica. Suamos porque o organismo é uma maravilha termorregulada por milênios de evolução. Substituir esse mecanismo por um dispositivo conectado a aplicativo significa, em algum nível, abrir mão de uma soberania silenciosa que carregamos desde a savana. A boa tecnologia é a que estende o homem sem o substituir, e essa é uma régua que precisa ser aplicada caso a caso, com mais lucidez do que entusiasmo.

De todo modo, no mundo das coisas concretas, vinte por cento de melhoria de desempenho em ciclo anual de produto é resultado respeitável, do tipo que se obtém com engenheiros disciplinados e linhas de produção próprias, não com powerpoints inspiradores. Que sirva de lembrete: o futuro pertencerá aos que fabricam, não aos que palestram sobre fabricação. O Brasil, que já teve indústria eletrônica relevante e a entregou pelo caminho mais covarde possível, faria bem em olhar para Tóquio com menos exotismo e mais inveja produtiva.

Com informações da The Verge. A análise e opinião são do O Algoz.