A notícia chega embrulhada em papel de presente: a inflação desacelerou nas Filipinas e na Tailândia, e os bancos centrais agora teriam "mais espaço para respirar" antes de decidir novos apertos de juros. Traduzindo do dialeto Bloomberg para o português adulto: o preço do petróleo caiu lá fora, os índices de preço ao consumidor seguiram atrás, e os senhores de terno em Manila e Bangcoc resolveram posar para a foto como se tivessem alguma coisa a ver com isso. É o equivalente monetário do galo que canta achando que fez o sol nascer.

Quem acompanha o circo monetário sabe que o roteiro é sempre o mesmo. Quando a inflação sobe, a culpa é do choque externo, da guerra, do clima, do vizinho, do azar cósmico. Quando a inflação cede, o crédito é todo do banco central, da "política monetária prudente", da "comunicação responsável", da "ancoragem das expectativas". Heads, eu ganho; tails, você perde. É um jogo em que a casa nunca paga, mesmo quando dorme no ponto. E o público ainda aplaude, porque foi educado durante quatro gerações a achar que economia é uma coisa que homens muito sérios fazem em prédios muito altos.

A verdade desconfortável é que tanto o boom inflacionário dos últimos anos quanto o alívio atual têm a mesma origem, e nenhuma delas mora na sala do comitê de política monetária. A enxurrada de moeda criada do nada durante a pandemia, replicada à exaustão no mundo todo, inflou tudo o que podia inflar, do salmão ao aluguel, do barril ao botijão. Agora que a torneira foi parcialmente fechada e a commodity energética cedeu, os preços respiram. Não foi sabedoria, foi aritmética. Quando se imprime menos papel, o papel vale um pouco mais. Descoberta digna de prêmio Nobel para quem ainda não tinha entendido.

Vale olhar para o que não aparece no gráfico bonito. A "respiração" do consumidor filipino e tailandês não devolve o poder de compra evaporado nos últimos três anos. O preço do arroz, do transporte, da energia subiu e ficou lá em cima; o que desacelerou foi a velocidade da subida, não o estrago já feito. É como agradecer ao ladrão por estar roubando mais devagar. E é exatamente esse o truque retórico que sustenta a legitimidade do arranjo: vende-se redução de dano como benefício, e a plateia, agradecida, bate palmas para quem incendiou a casa e agora aceita derramar meio balde d'água.

Há ainda o detalhe geopolítico que os boletins evitam mencionar com letras grandes. O barril cedeu não porque uma autoridade asiática negociou com a OPEP, mas porque a oferta global se reacomodou, a demanda chinesa patinou, e a guerra no Oriente Médio entrou num dos seus intervalos mornos. Quer dizer, a sorte de Manila e Bangcoc depende do humor de xeques, do estado da economia de Pequim e da agenda de bombardeios em Tel Aviv. Soberania monetária, dizem. Soberania de quem, exatamente? O país inteiro pendurado num futuro contrato de petróleo brent é o retrato fiel do que sobra de autonomia quando se entrega a moeda a um cartel de tecnocratas que reagem a planilha como cachorro de Pavlov reage a sineta.

A lição que ninguém vai tirar é a única que importa: o ciclo de alta e baixa de preços, esse vai e vem que destrói poupanças e arrasa a classe média trabalhadora, não é fenômeno natural como chuva ou eclipse. É consequência direta de um sistema em que um punhado de iluminados decide, em reunião fechada, quanto dinheiro vai existir amanhã. Enquanto esse arranjo for tratado como sagrado, vamos continuar nesse pêndulo, ora rezando para o petróleo cair, ora chorando porque subiu, sempre reféns de uma engrenagem que ninguém elegeu, ninguém audita e ninguém pode demitir. Inflação não é fenômeno do clima. É política. E política tem dono.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.