A Southern Company entregou números acima do consenso no primeiro trimestre de 2026 e o mercado tratou o evento como se fosse novidade. Quer dizer, uma concessionária de energia regulada, com tarifa garantida por comissão estadual, base de ativos remunerada por fórmula e clientes cativos que não podem trocar de fornecedor nem que rezem, supera previsões. Quanta surpresa. É como apostar que o cassino vai lucrar no fim do mês e ficar emocionado quando o balanço confirma.
O modelo de utility americano é uma daquelas obras-primas regulatórias que sobreviveram ao século vinte intactas justamente porque ninguém ousa olhar para elas com seriedade. A empresa investe em ativos, a comissão estadual aprova o investimento, a tarifa é calibrada para garantir retorno sobre o capital empregado, e o consumidor paga. Se o investimento foi bom, lucro. Se foi ruim, lucro também, porque o erro entra na base de cálculo da tarifa do ano seguinte. Olha que belo arranjo: privatizam-se os ganhos, socializam-se as ineficiências, e o nome disso é "mercado de energia".
O detalhe que os relatórios trimestrais não mostram em destaque é que parte relevante desse crescimento vem do programa Vogtle, a usina nuclear que custou três vezes o orçamento original e levou mais de uma década a mais do que prometido para entrar em operação. Em qualquer mercado livre, esse tipo de estouro fundiria a empresa. No mercado regulado, o estouro virou ativo, o ativo virou tarifa, e a tarifa virou lucro recorrente. Me diz uma coisa: quem pagou pela festa foi o acionista da Southern ou foi a dona de casa de Atlanta que abriu o boleto da luz?
Some-se a isso o teatro da transição energética, em que utilities como a Southern aparecem fantasiadas de salvadoras do clima enquanto repassam ao consumidor cada centavo do capex verde, com retorno garantido em cima. Subsídio federal para entrar, tarifa regulada para sair, e no meio do sanduíche um dos lucros mais previsíveis do índice S&P. O discurso é ESG, a contabilidade é mercantilismo do século dezessete, só que com painel solar no telhado e relatório de sustentabilidade na capa.
Não é falha do gestor da Southern. Ele está fazendo exatamente o que o sistema premia, e fazendo bem. O problema é o sistema. Quando um país decide que energia é serviço essencial demais para ser entregue à concorrência, mas comercial demais para ser entregue ao Estado, inventa esse híbrido em que a empresa privada captura o lucro e o cidadão captura o risco. Chamam isso de regulação prudencial. O nome correto seria pedágio com gravata.
O resultado trimestral, portanto, não diz quase nada sobre eficiência, inovação ou competência competitiva. Diz que a engrenagem continua azeitada, que a comissão tarifária continua complacente, e que o consumidor americano continua pagando pontualmente pela conta que não negociou. Lucro acima do esperado em utility regulada não é vitória do capitalismo. É boletim de saúde do compadrio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.