Pedro Sánchez aterrissou em Pequim na segunda-feira com o roteiro que a esquerda europeia usa quando não tem mais o que fazer em casa: transformar viagens internacionais em virtude. O homem que governa uma Espanha com desemprego jovem acima de 25%, uma Catalunha em permanente estado de tensão separatista e uma economia que depende de transferências da União Europeia para se manter de pé, foi até a capital do regime de partido único pedir que a China use sua influência para acabar com duas guerras que a diplomacia ocidental ajudou a alimentar. A cena tem toda a lógica de quem acredita que boas intenções substituem política externa real.

Mas vamos ao que interessa: Pequim não é mediador neutro. A China compra petróleo iraniano com desconto, mantém relações comerciais com Moscou que nunca foram cortadas, e trata a guerra na Ucrânia como uma oportunidade para enfraquecer o Ocidente sem disparar um único tiro por conta própria. Pedir à China que "faça mais pela paz" é o equivalente a pedir ao dono da adega que reduza o consumo de álcool na cidade. O incentivo não existe. O interesse é o oposto. E Sánchez sabe disso, o que transforma a visita de diplomacia em teatro, e teatro barato.

O padrão é antigo o suficiente para ter precedente em qualquer manual de história que não tenha sido reescrito por comissão universitária. Potências em declínio sempre pedem às potências em ascensão que ajam com responsabilidade. Os britânicos fizeram isso com os americanos no século XX. Os americanos fizeram isso com os chineses nos últimos trinta anos. O resultado, em ambos os casos, foi a transferência gradual de autoridade e legitimidade para quem foi visitado, não para quem visitou. Cada viagem dessas não é diplomacia: é uma aula de geopolítica ministrada involuntariamente pelo lado errado.

Há também o que não aparece na foto oficial. Sánchez não foi a Pequim só para falar de paz. A Espanha tem interesses comerciais consideráveis com a China, e o timing da visita coincide com um momento em que a Europa inteira está recalibrando suas relações com Pequim diante das tarifas americanas e da pressão para escolher lados. A retórica pacifista dá cobertura política para conversas econômicas que seriam difíceis de justificar diretamente ao eleitor espanhol. O que se vê é o estadista preocupado com o sofrimento humano. O que não se vê são os contratos, os acordos e as concessões negociadas nos bastidores com um regime que prende jornalistas e tem dois milhões de pessoas em campos de reeducação.

O mais revelador nessa história não é Sánchez, que é apenas o sintoma mais recente de uma patologia europeia mais ampla. O mais revelador é que ninguém na grande mídia achou estranho que um premier socialista democrático tenha ido pedir favores ao Partido Comunista Chinês como se fosse a coisa mais natural do mundo. A normalização foi tão completa que a absurdidade passou invisível. Uma civilização que perdeu a capacidade de reconhecer o absurdo quando ele usa terno e desce do avião com fotógrafo oficial está com problemas que nenhuma visita a Pequim vai resolver.

A China vai sorrir, vai ouvir, vai prometer "estudar a questão com atenção", e vai continuar exatamente o que estava fazendo antes de Sánchez pousar. E o primeiro-ministro espanhol vai voltar para Madri com um comunicado conjunto, uma foto na Grande Muralha e a sensação de que fez algo importante. Essa é a diferença entre quem tem poder e quem performa ter poder. O Partido Comunista Chinês sabe distinguir os dois. Só resta saber quando o eleitorado europeu vai aprender também.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.