A Starboard Group, que já manda no comércio a bordo de boa parte da indústria de cruzeiros, vai operar as lojas de mais oito navios da Princess Cruises. Em comunicado distribuído na semana, a empresa celebrou a expansão como se fosse conquista de mercado em livre concorrência. Não é. É a consolidação previsível de um arranjo que transforma cada navio numa praça murada, onde o cliente entra por uma porta só, compra do fornecedor escolhido pelo armador e paga o preço que o monopolista de bordo bem entender cobrar.
A mecânica do negócio é digna de manual de capitalismo de compadrio marítimo. A Princess não opera as lojas, mas terceiriza para um único parceiro de longa data, embolsa comissão sobre cada batom e cada relógio suíço vendido, e ainda anuncia tudo isso como modernização da experiência do passageiro. O passageiro, por sua vez, está em alto-mar, sem Mercado Livre, sem shopping concorrente atravessando a rua, sem nem mesmo a possibilidade de pegar um Uber para a esquina. Olha, se isso não é mercado cativo no sentido literal do termo, então a palavra perdeu o sentido.
O que se vê é a manchete elogiosa, o press release polido, o palavreado sobre experiência premium e curadoria de marcas. O que não se vê é a margem que se extrai de quem já pagou a passagem, já pagou o pacote de bebidas, já pagou a gorjeta automática, e ainda assim, num momento de tédio entre uma escala e outra, entra na loja e descobre que aquele perfume que custa duzentos reais no aeroporto de Guarulhos sai por quatrocentos no convés cinco. A diferença não evapora; vai para alguém. Siga o dinheiro: a comissão sobe pela escada hierárquica do armador, parte fica com o operador, parte vira bônus de executivo, parte vira aquele dividendo que faz o acionista da Carnival sorrir no Q3.
E aqui mora a inversão maliciosa do vocabulário: chamam isso de varejo. Varejo de verdade é o sujeito que abre uma lojinha na esquina concorrendo com outras três no mesmo quarteirão, sangrando margem para conquistar o freguês. Varejo é descoberta de preço, é briga por centavos, é cliente que vai embora se o concorrente cobrar menos. Nada disso existe num navio. O que existe é concessão exclusiva, fornecedor único, cliente preso por contrato de embarque, e a fantasia bem produzida de que ele está exercendo escolha quando, na prática, está apenas escolhendo entre dois balcões do mesmo dono.
Quer dizer, a indústria de cruzeiros é um laboratório raro daquilo que acontece quando o consumidor perde toda alternativa razoável de saída. Não é fraude, não é ilegal, ninguém vai preso por isso, e mesmo assim o resultado é o oposto da promessa do livre mercado. É o que costuma acontecer quando um setor consegue criar uma bolha geográfica e regulatória onde a concorrência simplesmente não chega. O navio é a metáfora perfeita do que vira qualquer mercado quando você fecha as saídas: um shopping flutuante onde o cliente sorri porque não percebeu ainda que pagou caro para ser refém.
O contrato com a Princess será apresentado nos relatórios como caso de sucesso, vai render slide em apresentação de conferência do setor, e talvez vire estudo em escola de negócios sobre parcerias estratégicas de longo prazo. A tradução honesta é mais simples: oito navios a mais sem ninguém para competir, oito plateias cativas a mais para serem ordenhadas com champanhe morno e bijuteria com etiqueta de joalheria. Capitalismo de mercado livre não é isso. Isso é a versão flutuante daquele velho arranjo em que o rei dava ao favorito o monopólio da venda de sal no porto, e todo mundo aplaudia porque o favorito sabia organizar uma boa festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.