A Starbucks acaba de abrir as portas do seu primeiro escritório corporativo na Índia, em Pune, com a missão declarada de centralizar operações de tecnologia, dados e inovação para o resto do planeta. Quer dizer, uma empresa que vende café fica subitamente apaixonada por um país que historicamente bebe chá, e ninguém se pergunta por quê. A resposta é mais antiga que o capitalismo moderno e mais simples que qualquer relatório de consultoria: capital é covarde, capital é inteligente, e capital vai onde encontra cérebro barato, regulação previsível e um governo que, comparado ao nosso, parece quase um modelo de civilidade fiscal.
Olha, a Índia não virou hub global de tecnologia por decreto, por bondade de Modi ou por algum plano quinquenal genial bolado em gabinete refrigerado. Virou porque, ao longo de trinta anos, foi desmontando aos poucos a herança socialista do Nehruvismo, abrindo setor após setor, abaixando alíquotas, simplificando o registro de empresa e, sobretudo, deixando o engenheiro indiano competir no preço que o mercado mundial estiver disposto a pagar. O resultado é que hoje uma gigante americana atravessa meio planeta para instalar seu cérebro tecnológico ali, enquanto o Brasil, que tem fuso horário mais conveniente, língua mais próxima do inglês corporativo do que se imagina e talento de sobra, recebe migalhas e ainda agradece.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que uma multinacional anunciou centro global de inovação em São Paulo? Não confunda com centro de atendimento, escritório regional ou call center disfarçado de hub. Falo de cérebro, de pesquisa, do tipo de operação que paga salário em dólar e gera royalty para décadas. A resposta incomoda, porque enquanto a Índia oferece estabilidade tributária e regime competitivo, o Brasil oferece reforma tributária que ninguém entende, IOF reativado na surdina, Receita Federal escrevendo regra nova toda terça-feira e um Judiciário que decide o que é dedutível dependendo do humor da turma. Capital não é masoquista.
E aqui entra o que ninguém quer ver. Cada escritório que vai para Pune, Bangalore ou Hyderabad é um escritório que não vem para Campinas, Florianópolis ou Recife. O emprego de engenheiro indiano de classe média que vai surgir nos próximos cinco anos com esse anúncio é o emprego brasileiro que não existiu, o salário que não foi pago, o imposto que não foi recolhido, o aluguel que não foi cobrado, a padaria do bairro que não vendeu o pão extra na hora do almoço. É a janela quebrada ao contrário, é a riqueza que se materializa do outro lado do mundo porque aqui o ambiente é hostil, e ninguém vê o que poderia ter sido, porque o que poderia ter sido não dá manchete.
O cinismo da história é que vão aparecer agora os mesmos articulistas de sempre explicando que o Brasil precisa de uma política industrial robusta, BNDES gordo, subsídio direcionado, fundo soberano de inovação, sigla nova para a mesma velha receita de pegar dinheiro do contribuinte e entregar para o amigo do compadre que conhece o ministro. Como se o problema fosse falta de Estado, e não excesso. Como se a Índia tivesse florescido por intervenção, e não justamente por se livrar dela. O que atrai uma Starbucks, uma Microsoft, uma Apple para um país é exatamente o oposto do que nossos planejadores recomendam: menos governo, menos imposto, menos regra inventada, mais previsibilidade, mais propriedade respeitada, mais contrato que vale o papel em que foi assinado.
No fim, a notícia é pequena no noticiário, mas é gigante como sintoma. Cada bandeirinha que uma multinacional finca em solo indiano é um voto de desconfiança silencioso contra o modelo econômico brasileiro, e nenhum discurso ufanista na ONU vai mudar isso. O dinheiro vota com os pés, e está votando há décadas. Continuamos achando que o problema é falta de plano, quando o problema é exatamente o plano.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.