Vamos ao osso da coisa. A Stardust Power, empresa que vende a narrativa de construir uma refinaria de lítio em Oklahoma para libertar a América da dependência chinesa, anunciou um acordo de venda de ações de até US$ 5 milhões com a B. Riley Securities. Em linguagem de adulto, isso se chama emissão diluitiva, ou no jargão técnico, ATM offering, e funciona como uma torneira aberta no balanço, pingando ações novas no mercado conforme o caixa míngua. Quem comprou o papel acreditando na promessa do lítio nacional acabou de descobrir, em letras miúdas, que a fatia dele no bolo encolheu para alimentar mais um trimestre de operação.
Olha, o roteiro é manjado e se repete com a previsibilidade de novela das seis. Empresa de capital aberto que prometeu o paraíso industrial, queima caixa em ritmo industrial, vê a ação despencar abaixo de um dólar, e quando o cofre arranha o fundo, aparece um banco de investimento de médio porte oferecendo o santo remédio da emissão contínua. A B. Riley, diga-se, é veterana nesse tipo de arranjo, especialista em micro caps que sobrevivem mais de prospecto do que de produto. A taxa que ela cobra por intermediar a sangria é o detalhe que ninguém comenta no comunicado oficial, mas está lá, mordendo cada dólar que entra.
E aqui mora a parte que o leitor precisa enxergar com clareza cirúrgica. Existe o que se vê, que é o título eufórico anunciando captação de cinco milhões para tocar o projeto adiante. E existe o que não se vê, que é o acionista de varejo, aquele que comprou na máxima acreditando no boom verde, vendo seu percentual da empresa derreter sem que ninguém lhe pergunte coisa alguma. O dinheiro entra no caixa da empresa, sim, mas o custo é distribuído como cinza vulcânica sobre todos os que já estavam lá. É uma transferência silenciosa de riqueza, vestida de capitalização estratégica.
Agora, me diz uma coisa, por que justo o lítio? Porque o setor virou o queridinho dos subsídios bilionários do Inflation Reduction Act, aquele monumento à fé inabalável de que burocrata em Washington sabe escolher o vencedor industrial do século vinte e um. A Stardust Power nasceu cavalgando essa onda, com tax credits federais embutidos no plano de negócios e promessas de financiamento via Departamento de Energia. Quando o governo decreta que tal commodity é estratégica, brota da terra um exército de empresas de fachada competindo pelo dinheiro do contribuinte, e o mercado de capitais vira balcão de revenda dessas apostas politicamente coreografadas.
O resultado prático é uma economia onde o preço deixa de informar e passa a desinformar. Capital que iria para projetos genuinamente lucrativos é desviado para empreendimentos cuja única viabilidade está no PowerPoint da apresentação ao investidor e no humor do Tesouro americano. A refinaria pode até sair do papel, ou pode ficar como mais uma carcaça enferrujada de promessa industrial subsidiada, ao lado de tantas Solyndras que a história já enterrou. O que não muda é quem paga a conta no final, sempre o mesmo trio infeliz, o acionista diluído, o contribuinte espoliado, e o consumidor que vai engolir o lítio mais caro do planeta para honrar o protecionismo.
Cinco milhões hoje, mais cinco amanhã, e quando o mercado acordar, a empresa terá emitido o equivalente ao próprio valor de mercado em papel novo, sem que sequer uma tonelada de carbonato de lítio tenha saído da refinaria. É o capitalismo de compadrio operando no varejo da bolsa, com gravata, comunicado oficial e selo de sustentabilidade. A mão invisível, quando o Estado segura uma das pontas, vira mão amputada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.