A burocracia taiwanesa, essa entidade discreta que tantas vezes adianta o que os departamentos de marketing gostariam de esconder, listou na última quarta-feira o RPG espacial da Bethesda com selo apropriado para o sucessor do console híbrido japonês. Não é rumor de fórum, não é vazamento de estagiário descontente, é registro oficial. E quando um órgão regulatório asiático carimba um papel, geralmente o lançamento está na fila do forno, não na prancheta.
O detalhe saboroso é o contexto. Há poucos anos nos venderam a ideia de que aquele jogo seria a pedra angular de um ecossistema fechado, o troféu que justificaria a compra de uma máquina específica, de uma loja específica, de uma assinatura específica. Nada envelhece tão rápido quanto uma promessa de exclusividade na era em que o custo de desenvolvimento de um triplo A equivale ao PIB de uma pequena república centro-americana. A conta não fecha, e quando a conta não fecha, a fidelidade ideológica da corporação se dissolve na velocidade do mercado.
Observe a sequência. Primeiro o PlayStation recebeu o que deveria ser a joia da coroa concorrente. Agora o console híbrido entra na dança. Estamos diante de uma capitulação elegante, disfarçada de estratégia multiplataforma, mas que na prática é o reconhecimento de que trancar software atrás de hardware é modelo de negócio do século passado. Quem construiu impérios de tijolo e cimento aprendeu isso da pior forma quando os livreiros de Mogúncia começaram a imprimir o que antes era copiado à mão em mosteiros. O monopólio da distribuição sempre acaba, e sempre acaba humilhando quem apostou nele.
Há ainda a dimensão técnica, que merece pausa. Rodar um universo proceduralmente gerado com mil planetas em um aparelho portátil não é trivialidade, é proeza de engenharia. Exige otimização brutal, provavelmente compressão agressiva de texturas, redução de densidade de objetos, talvez até streaming dinâmico via nuvem. Se a Bethesda entregar algo decente nesse formato, estará dando uma aula silenciosa sobre o que realmente importa quando o hardware impõe limites: programadores competentes, não departamentos de relações públicas.
Do ponto de vista do consumidor, a notícia é pura liberdade. O jogador brasileiro, que paga imposto em dobro e recebe lançamento em triplo atraso, ganha uma plataforma a mais para escolher. Escolha é o que mais assusta os departamentos de estratégia dessas empresas, porque escolha implode planilhas de previsibilidade e obriga a concorrer pela qualidade do produto, não pela captura do cliente. Cada vez que um título dito exclusivo pula a cerca, o mercado respira, e o cartel involuntário dos ecossistemas fechados leva mais uma rachadura na parede.
Resta a dúvida do porte em si. Será uma versão enxuta, será uma versão completa, será streaming? A resposta virá nas próximas semanas, provavelmente embrulhada em um evento transmitido em alta definição com narração emocionada. O que importa, no fundo, é o precedente. Quando o jogo mais ambicioso de um estúdio que foi comprado por uma gigante de Redmond aparece em um console de uma rival histórica japonesa, fica evidente que a guerra de plataformas virou teatro. E no teatro, quem paga o ingresso sempre acaba descobrindo que os atores, nos bastidores, dividem o mesmo camarim.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.