Sessenta bilhões de euros. O número é grande o suficiente para impressionar manchete, pequeno o suficiente para caber em apresentação de PowerPoint, e vago o suficiente para significar absolutamente qualquer coisa até 2030. A Stellantis, conglomerado nascido da fusão entre Fiat Chrysler e PSA, acaba de apresentar seu plano estratégico, e o ritual é sempre o mesmo: terno bem cortado, slide colorido, jornalista de caderno econômico transcrevendo release como se fosse jornalismo, e a plateia de analistas batendo palma para uma promessa que ninguém vai cobrar quando o prazo chegar.

Olha, quando uma empresa anuncia investimento bilionário em horizonte de cinco ou seis anos, a primeira pergunta que um adulto deveria fazer é: de onde vem esse dinheiro? Da geração de caixa? Da margem operacional que vem despencando trimestre após trimestre? Do mercado europeu que encolhe enquanto os chineses comem o almoço dos fabricantes ocidentais? Ou, como já é tradição secular da indústria automobilística, de uma combinação cuidadosamente desenhada entre crédito subsidiado, isenção fiscal, fundo de transição energética e aquele tapinha amigo do BNDES de plantão em cada país onde a empresa pisa?

Quer dizer, a Stellantis demitiu mais de dez mil trabalhadores nos últimos doze meses, fechou linhas de produção, suspendeu turnos em Betim, em Goiana, em Mirafiori, em Detroit. O CEO anterior foi defenestrado depois de queimar valor de mercado equivalente ao PIB de país pequeno. E agora, com o sangue ainda fresco no chão da fábrica, surge o plano salvador de sessenta bilhões, pontualmente coreografado com o cronograma político europeu que decidiu, por decreto burocrático, que todo carro vendido no continente terá que ser elétrico até 2035. Coincidência, naturalmente.

O truque é antigo e funciona porque a plateia esqueceu de aprender com a história. Promete-se eletrificação para destravar subsídio verde. Promete-se planta nova para arrancar incentivo regional. Promete-se emprego para silenciar sindicato e governador. Promete-se inovação para justificar isenção de imposto de importação de insumos. E enquanto a manchete celebra a coragem visionária do conselho de administração, o consumidor paga mais caro pelo carro que não pediu, o contribuinte financia a fábrica que não vai usar, e o concorrente menor, que não tem lobista em Bruxelas nem em Brasília, é esmagado por uma regulação desenhada sob medida para gigantes.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que esses sessenta bilhões representam decisão de mercado? Decisão de mercado é capital próprio arriscado em produto que o consumidor quer comprar com seu dinheiro, voluntariamente, sem pistola fiscal na cabeça. O que se vê aqui é outra coisa: é arranjo entre Estado, conglomerado e burocracia transnacional, no qual o risco é socializado, o lucro é privatizado, e a propaganda paga por todos os lados convence o cidadão médio de que tudo isso é progresso. A fábrica fechada em São Bernardo não entra no slide. O trabalhador que perdeu o emprego não aparece no gráfico. O carro elétrico de cento e oitenta mil reais que ninguém da classe média consegue comprar é vendido como democratização da mobilidade.

O plano não vai se cumprir, e isso todos sabem em silêncio. Em 2030, quando alguém for cobrar, o CEO já será outro, o conselho será outro, a estratégia será outra, e o novo PowerPoint anunciará, com a mesma cara séria, mais sessenta bilhões para os próximos dez anos. Enquanto isso, o consumidor segue refém de uma indústria que esqueceu como competir e aprendeu como lobar, e o trabalhador segue contribuindo para o fundo de pensão que financia o bônus do executivo que o demitiu. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais elegante, vestido de terno italiano e falando inglês de Davos. E a conta, como sempre, vem no boleto que ninguém lê.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.