A Stellantis, aquela mesma conglomerada que nasceu de fusão subsidiada e vive de incentivo estatal espalhado por meia dúzia de países, anunciou que vai expandir a parceria com a Leapmotor na Espanha. Traduzindo do corporativês para o português: a fabricante europeia que deveria estar aterrorizada com a invasão chinesa, segundo o discurso oficial de Bruxelas, está na verdade montando carro chinês em solo europeu, com selo europeu, para vender como se fosse europeu. E o pior é que ninguém está rindo da piada, porque a piada custa caro e a conta vem pelo IPVA, pelo IVA e pela tarifa que o consumidor não vê embutida no preço final.
Olha, é preciso parar um segundo e admirar a engenhosidade do arranjo. A União Europeia impõe tarifas pesadas sobre veículos elétricos chineses sob o pretexto nobre de proteger a indústria local. Lindo no discurso. Só que a indústria local, representada aqui pelos executivos da Stellantis, descobriu que é mais barato fazer parceria com o inimigo declarado do que enfrentá-lo. Resultado, o tal protecionismo vira fachada, a Leapmotor entra pela porta dos fundos com chave dada pela própria casa, e o contribuinte europeu continua financiando a farsa via subsídios à transição verde, créditos de carbono e benefícios fiscais para fábricas que produzem carro projetado em Hangzhou.
A Espanha não foi escolhida por acaso. Madri foi exatamente o governo que mais bateu palma para as tarifas contra a China em Bruxelas, e agora abre os braços para receber a fábrica que driblará essas mesmas tarifas. Quer dizer, no plenário da Comissão Europeia o ministro espanhol levanta o dedo contra a concorrência desleal asiática, e na semana seguinte assina memorando de entendimento para hospedar a operação que torna a tarifa irrelevante. É o tipo de coerência que só sobrevive porque a imprensa econômica decidiu há muito tempo que questionar acordos industriais de bilhões é coisa de gente sem visão estratégica.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. A Stellantis comprou 21 por cento da Leapmotor em 2023 por algo em torno de um bilhão e meio de euros, e desde então repete em cada teleconferência de resultados que essa é a aposta dela para o futuro elétrico. Futuro elétrico financiado por quem, exatamente? Pelo mesmo consumidor europeu que paga preço inflado de combustível por causa da política climática, paga imposto sobre o carro a combustão para subsidiar o carro elétrico, e agora vai pagar o carro elétrico chinês com etiqueta franco-italiana fabricado na Espanha com dinheiro público de transição energética. Três camadas de transferência forçada de renda em uma única operação industrial. Uma obra-prima.
O que ninguém fala em voz alta é que esse tipo de arranjo demole a tese fundadora da política industrial europeia das últimas duas décadas. A ideia vendida ao eleitor era que o protecionismo verde criaria empregos europeus, tecnologia europeia, soberania europeia. O que está acontecendo na prática é o oposto exato. A engenharia continua chinesa, a propriedade intelectual continua chinesa, o lucro estratégico continua chinês, e a Europa fica com o galpão, a linha de montagem e a ilusão de que ainda manda em alguma coisa. É a definição clássica de uma economia que terceirizou o cérebro e ficou com o músculo, achando que isso é vitória.
No fim, o episódio Stellantis Leapmotor é menos uma notícia automotiva e mais um raio-x do estado do capitalismo continental europeu. Um modelo onde grandes corporações não competem, negociam com o Estado. Onde o Estado não regula, escolhe vencedores. Onde o consumidor não escolhe, paga. E onde o discurso de soberania serve apenas para justificar a próxima rodada de subsídio. A Espanha vai ganhar empregos temporários, a Stellantis vai ganhar margem, a Leapmotor vai ganhar mercado, e o europeu comum vai descobrir, daqui a alguns anos, que pagou para financiar a própria irrelevância industrial. Tarifa que não barra, protege quem está dos dois lados do balcão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.