A Stephens, casa de análise que vive de cheirar balanço, baixou o preço-alvo da Flowers Foods e justificou o corte com aquilo que qualquer dona de casa percebeu antes do economista premiado: as margens da fabricante de pão estão sendo trituradas pela combinação de custos teimosos e consumidor cansado. O relatório usa o vocabulário polido do mercado, fala em pressão de insumos, em mix de produtos, em volume promocional. Tradução honesta: o pão custa mais para ser feito do que o freguês está disposto a pagar, e a conta entre essas duas pontas é o que sobra para o acionista. Pouco, no caso.

Convém lembrar de onde vem essa pressão que os relatórios tratam como fenômeno meteorológico, como se margem evaporasse por vontade própria. Vem de anos de impressora ligada no Federal Reserve, de juros artificialmente baixos que inflaram custos em toda a cadeia produtiva, de gastança fiscal bipartidária que jogou trilhões na economia americana como se dinheiro fosse vento. O trigo, o óleo de soja, o diesel do caminhão, o salário do operador da linha de produção, tudo isso refletiu o tsunami monetário com a fidelidade de espelho. Agora que o banco central tenta fingir que o problema é a empresa que não soube repassar, o jogo da batata quente terminou no colo de quem realmente produz.

E aqui aparece a parte que ninguém quer encarar de frente. A Flowers Foods não fixa preço por capricho. Ela disputa prateleira com marca própria de supermercado, com concorrente subsidiado por algum programa estadual, com consumidor que olha o preço do pão de forma quase litúrgica porque sente no bolso o que o índice oficial de inflação não captura. Quando o analista corta o alvo, está reconhecendo que a empresa não tem mais espaço para repassar custo sem perder cliente. Há um nome técnico para isso: destruição de demanda. Há um nome popular: gente comendo menos pão porque está cara demais.

Siga a trilha do dinheiro e o quadro fica desconfortável. Os custos subiram porque a moeda perdeu valor, e a moeda perdeu valor porque o governo financiou décadas de promessas impagáveis com dívida monetizada. Os subsídios agrícolas distorceram preços de grãos por gerações. As regras trabalhistas, as exigências regulatórias, os mandatos de embalagem, tudo isso é custo embutido que ninguém vê no rótulo mas todo mundo paga no caixa. O acionista da Flowers acha que perdeu dinheiro por causa do CEO. Perdeu por causa do Tesouro, do Fed, da agência regulatória e do congresso que vota orçamento como se estivesse jogando Monopoly.

O mais bonito é o teatro que se segue. Vão aparecer propostas para subsidiar o pão, para tabelar a farinha, para criar programa federal de panificação acessível, para isentar o setor de algum imposto enquanto cria outro do lado. Cada uma dessas medidas será apresentada como solução compassiva e produzirá exatamente o oposto do prometido. Onde se controla preço, falta produto. Onde se subsidia insumo, cria-se dependência. Onde se isenta imposto sem cortar gasto, a conta volta inflada pela porta dos fundos. O padeiro do bairro sabe disso porque já viu o filme três vezes. O burocrata em Washington nunca viu porque nunca precisou olhar o livro caixa no fim do mês.

O corte de preço-alvo é, no fundo, um boletim médico. Diz que o paciente está doente, não inventa a doença. A doença é o dinheiro fraco, o Estado obeso e a ilusão coletiva de que dá para comer pão eternamente subsidiado por dívida que alguém pagará depois. Esse depois costuma chegar sem aviso, e costuma chegar primeiro na conta de quem produz coisas reais, como pão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.