O Stifel acaba de elevar o preço-alvo da Texas Instruments anunciando que a empresa está diante de uma "recuperação cíclica". Bonito o vocabulário, conveniente o timing. Quer dizer, a mesma indústria que há dois anos chorava excesso de estoque, demanda morna e margem comprimida agora vai entrar em ciclo virtuoso porque um analista olhou para o gráfico e teve uma epifania. Olha, ninguém entra nesse jogo sem saber que o relatório de hoje é menos análise e mais ritual litúrgico para sustentar a tese de quem já comprou ação a preço caro e precisa que o próximo trouxa entre na festa.

Antes de comemorar a tal recuperação, vale fazer a pergunta que nenhum gestor de fundo quer ouvir em conferência com investidor: de onde vem essa demanda mágica que vai resgatar a margem da Texas Instruments? Vem do mercado real, de famílias comprando geladeira e indústria construindo máquina, ou vem do mesmo balcão de Washington que despejou dezenas de bilhões de dólares no setor via CHIPS Act, com promessa de mais subsídio, mais incentivo fiscal, mais "parceria público-privada" que é o nome elegante para socializar prejuízo e privatizar lucro? A resposta está na cara de quem quiser olhar, mas olhar dá trabalho, e analista de banco prefere o atalho do ciclo.

Aqui está o truque que se repete há um século e que ninguém parece cansar de ver. Banco central derruba juro, governo despeja dinheiro num setor da moda, empresas investem como se o futuro fosse perpétuo, constroem capacidade ociosa, descobrem que ninguém comprou tanto chip quanto o planilheiro projetou, sofrem o ressaca do estoque, cortam guidance, e então, exatamente quando a poeira deveria assentar e o mercado limpar o que está podre, vem o próximo round de estímulo monetário sussurrado por aí, o juro promete cair, o crédito promete voltar, e voilà, está montada a próxima rodada do mesmo carrossel. Não é ciclo, é coreografia.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara ainda. A Texas Instruments tem fábrica nova no Texas, fábrica nova em Utah, expansão na Malásia, tudo bancado em parte significativa por subsídio federal americano e crédito tributário. Cada dólar de capex turbinado pelo contribuinte é um dólar que distorce o cálculo de retorno real do investimento, infla a base de ativos, mascara a verdadeira produtividade do capital empregado e cria a ilusão de que a empresa está crescendo organicamente quando está crescendo na barriga do Tesouro americano. O investidor que compra a ação acha que está comprando engenharia; está comprando, na verdade, uma fatia de política industrial.

E tem o lado moral da coisa, que ninguém nesse mercado quer discutir porque dá pano para manga. Enquanto o pequeno empresário americano e brasileiro paga imposto cheio, sofre regulação ambiental, trabalhista e tributária que sufoca margem, gigantes da semicondução recebem tapete vermelho, isenção, terreno público, contrato garantido e ainda têm o luxo de aparecer como heroínas da soberania tecnológica nacional. É o velho conluio entre Estado e grande corporação vestido de geopolítica, e o consumidor final paga a conta três vezes: como contribuinte que financia o subsídio, como comprador do produto que custa mais caro pela distorção, e como cidadão que vê o capitalismo de verdade ser substituído pelo capitalismo de compadrio com sotaque tecnológico.

Me diz uma coisa, se a Texas Instruments fosse mesmo essa máquina de retorno que o relatório do Stifel pinta, por que precisaria de bilhão em subsídio público para construir fábrica em casa? Empresa boa não precisa de muleta estatal, e indústria que depende de tutela não é estratégica, é dependente. O analista pode até acertar a direção do papel no curto prazo, porque manada segue manada e dinheiro barato eleva qualquer coisa, mas a verdade econômica, essa teimosa, cobra a fatura mais cedo ou mais tarde. Quando cobrar, o mesmo Stifel estará escrevendo relatório sobre o próximo ciclo, e o investidor que acreditou na recuperação estará segurando o mico, perguntando como foi que tudo pareceu tão promissor.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.