A casa de análise Stifel elevou o preço-alvo da Viking Holdings, operadora de cruzeiros premium, justificando a revisão com perspectivas de receita aquecidas. Traduzindo do dialeto de banco para o português: quem tem dinheiro continua gastando, e quem tem muito dinheiro está gastando ainda mais. Bonito o gráfico, bonita a projeção, bonita a apresentação em PowerPoint para o cliente private. O que ninguém coloca no slide é o motivo pelo qual o consumo de luxo dispara enquanto o consumo da classe média encolhe, e esse motivo tem nome, sobrenome e CNPJ, chama-se banco central com a impressora ligada há quinze anos.
Quando se imprime trilhões de dólares, o dinheiro novo não cai paraquedista igualitário em cima de cada cidadão. Ele entra pela porta da frente do sistema financeiro, infla ativos primeiro, beneficia quem está mais próximo da torneira, e só chega ao trabalhador na forma de inflação no supermercado. É o efeito mais antigo e mais documentado da expansão monetária, e ainda assim continuam fingindo surpresa quando o índice de cruzeiros de luxo bate recorde no mesmo trimestre em que a inadimplência do cartão de crédito também bate. Não é coincidência, é mecânica.
O analista da Stifel não está errado nos números, ele está certo demais. A Viking realmente vai vender mais cabines, realmente vai aumentar receita, realmente vai entregar o que prometeu ao acionista. O problema não é a empresa, é o pano de fundo. Quando o termômetro do otimismo financeiro se descola brutalmente do termômetro da vida real do consumidor médio, alguém está sendo enganado, e geralmente não é quem está no convés do navio tomando champanhe, é quem está no continente pagando o imposto que financia o subsídio que sustenta a estrutura inteira.
Vale lembrar que essas projeções otimistas de turismo de luxo costumam ser indicador atrasado, não adiantado. Em 1928 também se vendia passagem de primeira classe como nunca, e os economistas oficiais garantiam que a prosperidade era permanente. Mercados não quebram quando o pobre fica mais pobre, quebram quando o rico finalmente percebe que ficou rico em papel. E papel, todo mundo que estudou um pouco de história monetária sabe, queima rápido quando a confiança evapora.
Há ainda o capítulo das taxas de juros, que está sustentando esse arranjo todo de pé. Crédito barato demais por tempo demais cria a ilusão de que tudo vai bem, alimenta consumo discricionário no topo da pirâmide, mascara a deterioração da base. Quando o ciclo virar, e ele sempre vira, os mesmos analistas que hoje elevam preços-alvo vão escrever relatórios explicando, com a serenidade de quem nunca errou, por que era impossível prever. Era possível, é possível, e quem não está prevendo é porque está sendo pago para não prever.
A festa do papel continua enquanto durar a impressora. O que não dá para esquecer é que toda festa financiada com dinheiro falso termina do mesmo jeito, com ressaca proporcional ao tamanho da bebedeira, e a conta cai sempre no colo de quem não estava no navio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.