A Stifel rebaixou o preço-alvo da Lululemon citando o óbvio que qualquer gerente de loja do shopping já sabia há meses: a americana média não está mais disposta a torrar o equivalente a uma conta de luz numa calça de ioga. As vendas comparáveis na América do Norte vieram fracas, o tráfego nas lojas caiu, e analista de banco, sempre o último a chegar na festa, agora descobre que a marca perdeu o pricing power que sustentava o múltiplo absurdo da ação. A festa do dinheiro fácil acabou e ninguém avisou os figurinos.
Convém lembrar de onde veio o foguete. Durante a pandemia, governos despejaram trilhões de dólares na economia, os bancos centrais zeraram juros, e o consumidor acordou com a conta bancária inchada e nenhum lugar para gastar além do e-commerce. Athleisure, peloton, móveis de home office, tudo virou ouro. A Lululemon multiplicou receita, margem e capitalização porque havia liquidez artificial financiando o capricho de quem pagava trezentos dólares numa calça porque podia. Não era genialidade de marketing, era inflação monetária travestida de tendência cultural.
Quando a torneira fecha, o feitiço se desfaz. A inflação acumulada corroeu o salário real, o cartão de crédito americano bateu recorde de inadimplência, e o consumidor descobriu, atônito, que precisa escolher entre pagar a hipoteca e renovar o guarda-roupa fitness. A concorrência também não dormiu no ponto: Alo, Vuori, Gymshark e meia dúzia de chinesas vendendo no TikTok perceberam que o produto não tem segredo industrial nenhum. É tecido técnico, costura reta e logotipo. O fosso competitivo era a percepção de status, e percepção de status evapora na velocidade em que o boleto chega.
Aqui mora a lição que os manuais de finanças teimam em esconder. Toda vez que o dinheiro fica barato demais, o mercado fabrica narrativas para justificar preço que não se sustenta na realidade. Marcas viram religião, ações viram fé, e analistas escrevem relatórios solenes explicando por que dessa vez é diferente. Nunca é. Quando o custo do capital volta ao normal, o consumidor recupera o juízo, e o que parecia moat virtuoso se revela commodity com tag bonito. A destruição de valor que vem agora não é causada pela queda, é a queda que finalmente revela a destruição que já existia.
O caso da Lululemon não é tragédia, é correção. A empresa continua dando lucro, vendendo bem na Ásia e operando com margem que noventa por cento do varejo americano gostaria de ter. O que está morrendo é a fantasia de que ela valia setenta vezes o lucro porque o tecido era mágico. Wall Street está fazendo o que faz há trezentos anos: precificar a realidade com atraso conveniente, depois que o investidor de varejo já comprou no topo. Quem segurou a ação acreditando no conto do crescimento eterno está pagando o ingresso do espetáculo que os fundos de hedge já assistiram pelo lado de fora.
Fica a moral barata da fábula cara: não existe marca imune à gravidade econômica, não existe múltiplo justificado por powerpoint, e não existe almoço grátis financiado por banco central sem que a sobremesa amarga apareça depois. A calça preta de seiscentos reais foi símbolo de uma era de delírio coletivo. Agora vira saldo de liquidação, e o saldo de liquidação é a forma mais honesta de capitalismo que existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.