A tempestade Jangmi se aproxima de Tóquio, derruba perto de 880 voos, espalha apagões pelo Japão e, em questão de horas, transforma uma das cidades mais organizadas do planeta numa coleção de passageiros dormindo no chão do aeroporto. É a cena de sempre: a natureza dá um espirro e a engenharia social mais sofisticada da Ásia descobre que continua dependendo de vento, chuva e da boa vontade de uma frente fria que ninguém votou para chegar. Quer dizer, se nem o Japão, com toda a sua disciplina quase litúrgica, consegue blindar a rede elétrica de uma tempestade tropical sazonal, o que dizer dos burocratas tropicais que prometem domar o clima do planeta inteiro com taxa de carbono e palestra em Davos.

Olha o roteiro. Companhias aéreas cancelam, passageiros perdem conexão, carga apodrece em armazém, comércio fecha, indústria para linha de produção, hospital liga gerador, e a conta dessa paralisação não aparece em lugar nenhum no PIB do trimestre. Aparece no bolso do sujeito que pagou hotel para passar a noite num saguão, do exportador que perdeu prazo de contrato, do pequeno comerciante que viu o freezer descongelar. O que se vê é o aeroporto fechado nas manchetes; o que não se vê é a cadeia invisível de prejuízos que se irradia por semanas em milhões de decisões individuais que ninguém vai compilar em planilha do ministério.

E aí entra a parte cômica, que é o reflexo automático do planejador. Toda vez que um evento climático rotineiro, porque tempestade tropical no Pacífico em junho é tão exótica quanto chuva de verão no Rio, expõe a fragilidade da rede, a resposta vem pronta no balcão: precisamos de mais investimento estatal, mais regulação, mais agência reguladora, mais plano nacional disso e daquilo. Como se o problema da rede elétrica japonesa fosse falta de comitê. Os mesmos sujeitos que não conseguem manter um poste em pé com vento de 90 km/h querem agora calibrar a temperatura média da troposfera global daqui a oitenta anos. Me diz uma coisa: faz sentido?

Siga o dinheiro e a piada fica mais nítida. Cada apagão vira justificativa para novo pacote bilionário, cada pacote bilionário vira contrato com as mesmas concessionárias amigas do regulador, cada contrato vira tarifa mais cara para o consumidor final, e o ciclo recomeça na próxima tempestade. A natureza fornece o pretexto, o lobby fornece a solução, e o cidadão fornece o cheque. É o capitalismo de compadrio na sua forma mais limpa, vestido de resiliência climática e tecnologia verde, com selo de sustentabilidade colado na fatura inflada.

Há ainda a lição mais profunda, aquela que ninguém quer ouvir nas redações. A civilização moderna construiu para si um mito narcótico de que dominou a natureza, de que o conforto urbano é direito adquirido, de que basta apertar um interruptor para o universo obedecer. Bastam algumas horas de chuva forte para a ilusão se dissolver e o homem urbano descobrir, horrorizado, que continua sendo o mesmo bicho frágil dos seus bisavôs, só que agora sem saber acender uma vela. A diferença é que o bisavô sabia que não controlava o tempo; o neto acha que controla, e ainda quer multar quem discordar.

A verdade simples é que sociedades robustas se constroem de baixo para cima, com redundância descentralizada, propriedade privada respeitada, mercado livre para precificar risco e seguros que funcionam sem mamata estatal. Sociedades frágeis se constroem de cima para baixo, com monopólios regulados, planejador onisciente e a fantasia de que basta uma agência nova para o vento parar de soprar. Tóquio vai se reerguer rápido porque ainda tem alguma coisa do primeiro modelo. O resto do mundo, que correu para o segundo, deveria assistir a esse apagão como quem assiste a um aviso. O vento não pede licença ao ministro, e nenhuma assinatura em decreto jamais convenceu uma nuvem a mudar de rota.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.