A notícia chega com aquele tom polido de quem precisa fingir surpresa para vender relatório: caso o Estreito de Ormuz não reabra logo, o argumento de investir em ações europeias se degrada materialmente. Tradução do economês para o português: o continente que se vendeu por décadas como o farol da sofisticação financeira global está pendurado numa faixa de mar de 33 quilômetros que ele não controla, não defende e nem sequer entende direito. E os mesmos estrategistas que ontem recomendavam comprar Europa porque "os fundamentos são sólidos" agora recomendam vender Europa porque, bem, os fundamentos sempre foram um navio iraniano de distância da pulverização.
O detalhe que ninguém quer dizer em voz alta é que essa fragilidade não é acidente do destino, é projeto. Por trinta anos, a elite tecnocrática europeia decidiu que indústria pesada era coisa feia, energia barata era poluente, militares próprios eram cafonas e geopolítica era assunto resolvido pelo fim da história. Desmontaram refinarias, fecharam usinas nucleares na Alemanha em pleno inverno, terceirizaram a defesa para Washington, terceirizaram a energia para Moscou, terceirizaram a indústria para Pequim, e agora terceirizam a própria sobrevivência financeira para uma rota marítima que passa entre o Irã e Omã. Quer dizer, é o equivalente civilizacional de demitir o segurança, desligar o alarme, pendurar a chave na maçaneta e depois reclamar que a casa foi assaltada.
Olha, o que está acontecendo no preço das ações europeias é apenas o sintoma. A doença é estrutural e tem nome: uma classe dirigente que confundiu pacifismo com geopolítica, regulação com produção, ESG com energia e burocracia em Bruxelas com civilização. Cada diretiva ambiental que matou um poço de gás no Mar do Norte, cada subsídio bilionário despejado em painel solar fabricado na China, cada euro queimado em transição energética planejada por comissão de funcionários públicos é agora um euro a menos de margem de manobra quando um general iraniano decide testar a paciência do mundo. O que os relatórios chamam delicadamente de risco geopolítico é o boleto vencido de escolhas tomadas em sala climatizada por gente que jamais perfurou um poço, fundiu um aço ou disparou um tiro.
Me diz uma coisa: você já reparou que sempre que o petróleo sobe, os mesmos jornalistas que defenderam o fechamento de cada refinaria europeia descobrem, de repente, que o continente está vulnerável? É a coreografia eterna do intervencionismo. Primeiro proíbem a produção em casa em nome de uma virtude abstrata, depois importam a dependência de regimes que não compartilham nenhuma virtude, e quando a conta chega culpam o mercado, culpam os especuladores, culpam o clima, culpam tudo, menos a sequência de decisões burocráticas que entregou o continente amarrado para o primeiro aiatolá com vontade de mexer no GPS dos petroleiros. E os contribuintes, claro, pagam três vezes: pagaram a transição, pagam o gás caro, e agora pagarão o resgate dos bancos que financiaram as multinacionais que dependem do estreito.
O mais cômico é a fé inabalável que esses estrategistas mantêm na ideia de que existe um arranjo institucional, um acordo, uma cúpula em Davos, uma reunião do G7, capaz de devolver previsibilidade. Não existe. A previsibilidade vem da força produtiva interna, da diversificação real de fornecedores, do poder dissuasório próprio, do tecido industrial vivo, da disposição cultural para defender o que é seu. Coisas que se constroem em décadas e se perdem em uma legislatura. A Europa escolheu o caminho contrário e agora seus ativos financeiros oscilam ao sabor de uma corveta no Golfo Pérsico. Não é injustiça do mercado, é justiça poética.
O investidor sério extrai daqui uma lição que vale mais que qualquer relatório de banco suíço: bolsa sem soberania energética é cassino, prosperidade sem músculo produtivo é miragem, e civilização que terceiriza a própria espinha dorsal para o estrangeiro paga, mais cedo ou mais tarde, o preço de cabeça erguida no caixão. Ormuz não é o problema da Europa. Ormuz é o espelho.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.