Strawberry Fields REIT, um fundo imobiliário focado em imóveis de saúde nos Estados Unidos, declarou dividendo trimestral de dezessete centavos de dólar por ação. A manchete viaja pelos terminais financeiros como se fosse novidade, mas é apenas mais um capítulo da liturgia mensal em que fundos americanos despejam migalhas no colo dos cotistas e contam com a memória curta do mercado para transformar rotina em manchete. Seventeen cents. Em uma economia onde o próprio dólar perdeu mais de vinte por cento do poder de compra na última década, dezessete centavos por ação trimestral é menos um rendimento e mais uma ilusão de ótica contábil.
Olha, o modelo do REIT americano é genial e perverso ao mesmo tempo. A legislação obriga o fundo a distribuir noventa por cento do lucro tributável aos acionistas, e em troca o veículo escapa do imposto corporativo. Parece um presente, mas na prática transforma o gestor em refém de um cronograma de distribuição que precisa ser sustentado mesmo quando a operação não justifica. O resultado é um setor inteiro viciado em alavancagem, em emissão constante de novas ações para tapar o buraco da distribuição obrigatória, e em narrativas de dividend yield que mascaram a diluição silenciosa do cotista que entrou cedo.
Quer dizer, ninguém está prestando atenção no que não se vê. Ao lado do dividendo anunciado, existe a inflação americana rodando acima da meta há anos, existe o custo de capital pressionado pelos juros do Federal Reserve, existe a depreciação real dos ativos imobiliários de saúde num país onde o sistema Medicare/Medicaid é uma bomba fiscal armada. Quando se desconta tudo isso, o tal rendimento entregue no envelope é uma fração do que o investidor perdeu em poder de compra ao manter capital travado num veículo que existe primariamente para satisfazer uma exigência tributária, não para maximizar retorno.
E aí entra a parte que ninguém quer discutir em mesa redonda da CNBC: o setor de imóveis de saúde nos Estados Unidos vive de subsídio governamental disfarçado. Skilled nursing facilities, lares de idosos, clínicas de longa permanência, tudo isso depende do fluxo de reembolso federal. Quando o congresso americano apertar o cinto, e ele vai apertar porque a dívida pública passou dos trinta e seis trilhões, esses fluxos de aluguel travados em contratos longos viram papel molhado. O cotista que comprou pelo yield está sentado em cima de um ativo cujo valor real depende inteiramente da capacidade do Tesouro americano de continuar rolando dívida na boca do canhão.
Me diz uma coisa, qual é a diferença entre um fundo que distribui dezessete centavos enquanto a moeda perde valor e um banco central que imprime dinheiro para pagar juro nominal sobre dívida real? Nenhuma. É o mesmo truque escalado em níveis diferentes da pirâmide. O cotista comemora o dividendo como o aposentado comemora o reajuste do INSS abaixo da inflação. Ambos foram convencidos de que estão recebendo algo quando na verdade estão sendo lentamente desidratados. A festa do rendimento é o anestésico do confisco invisível.
O investidor brasileiro que olha para o mercado americano com olhos de devoto precisa entender que o teatro do dividendo é o mesmo em qualquer praça, só muda o figurino. Lá tem o REIT obrigado a distribuir, aqui tem o FII com isenção de imposto sobre o rendimento mensal. Em ambos os casos, o veículo é desenhado para entregar fluxo previsível ao cotista enquanto o ativo subjacente sangra pela depreciação, pela inflação, pela tributação indireta e pela erosão regulatória. Riqueza de verdade não pinga em centavos trimestrais. Riqueza de verdade se constrói em ativos que ninguém precisa anunciar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.