A notícia chega embrulhada no papel de presente da imprensa financeira, com aquele ar solene de quem anuncia um feito heróico, a subsidiária da E-Power recebeu US$ 294.000 de subsídio provincial, ponto, parágrafo, próxima manchete. Quer dizer, o jornal trata como se a empresa tivesse vencido uma licitação privada, fechado um contrato com cliente, conquistado mercado pelo produto. Não conquistou nada. Recebeu. Há uma diferença abissal entre faturar e ser sustentado, e essa diferença foi cuidadosamente apagada pela linguagem corporativa que transformou propina legalizada em "incentivo".
Olha, todo subsídio é uma operação de três pontas, e a imprensa só te mostra duas. Tem o governo que entrega, tem a empresa que recebe, e tem o sujeito invisível que pagou, o contribuinte da província, aquele que trabalha, paga imposto, e financia a competitividade artificial de uma companhia que ele não escolheu apoiar. O que se vê é o cheque chegando na sede da E-Power. O que não se vê é o pequeno empresário canadense que perdeu margem porque o concorrente subsidiado pode operar com prejuízo, o trabalhador cujo salário rendeu menos porque o imposto foi maior, o aposentado cujo serviço público piorou porque a verba foi para a tesouraria de uma empresa privada.
Me diz uma coisa, se a operação da subsidiária fosse genuinamente viável, por que precisaria de quase trezentos mil dólares de dinheiro alheio para acontecer? A resposta honesta é que não precisaria, e justamente por isso o subsídio existe. O subsídio é a confissão pública de que aquele negócio, naquele formato, naquele prazo, não passa no teste do mercado, então precisa ser empurrado pelo Estado, com o dinheiro de quem nunca foi consultado. Toda vez que o burocrata provincial decide "fomentar setores estratégicos", está dizendo na cara do consumidor que sabe melhor que ele onde investir o salário dele. É a velha pretensão de sempre, vestida de planilha.
E aqui entra o capítulo que ninguém quer escrever, a parte do compadrio. Dinheiro público não cai do céu na conta de empresa por acaso. Há um circuito, há lobby, há relatório técnico encomendado, há reunião agendada, há padrinho político em algum canto da estrutura provincial assinando o despacho. Siga o cheque até a última gaveta e você encontra sempre a mesma fauna, consultor que antes era servidor, servidor que depois vira consultor, deputado que defende o setor que financia sua campanha, jornalista que reproduz o release sem perguntar quem ganha e quem paga. O subsídio é o lubrificante dessa engrenagem, e a manchete neutra é o esmalte que disfarça a ferrugem.
O mais perverso é o efeito cultural, porque quando esse arranjo se normaliza, o empresário deixa de competir e passa a peticionar, deixa de inovar e passa a pleitear, deixa de servir cliente e passa a cortejar burocrata. A energia produtiva da sociedade migra do galpão para o corredor do palácio, e o sujeito mais bem-sucedido deixa de ser o que faz melhor produto e passa a ser o que tem melhor advogado em Brasília, em Ottawa, em qualquer capital onde haja torneira aberta. Repita o procedimento por uma década e a economia inteira vira uma feira de pedintes vestidos de executivos, com gravata cara e crachá de congresso setorial.
Trezentos mil dólares parecem pouco diante de um orçamento provincial, e é exatamente esse o truque. Cada operação isolada parece pequena, irrelevante, quase técnica, mas a soma dessas pequenas transferências silenciosas é o que sustenta um modelo econômico inteiro de capitalismo de balcão, onde o lucro é privado e o risco é socializado. Não há subsídio inocente, não há incentivo neutro, não há fomento gratuito. Há apenas confisco redistribuído com sotaque de boletim oficial. Quando a manchete chamar isso de notícia boa, lembre-se de procurar, na linha de baixo, o nome do pagador.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.