José Guimarães ainda estava aquecendo a cadeira que foi de Gleisi Hoffmann quando resolveu estrear no cargo com uma declaração de princípios: celebrou, em nota e em entrevista, a derrota de Viktor Orbán nas eleições legislativas da Hungria, realizadas no último domingo. Péter Magyar, líder do partido Tisza, venceu com uma margem histórica, e o novo articulador político do governo Lula tratou o resultado como uma vitória pessoal sua, como se a democracia húngara precisasse da bênção do PT para se considerar válida.
Vamos com calma. O mesmo partido que, há menos de dois anos, enviou delegações fraternais a Caracas, que chamou de "narrativa da direita" as denúncias de fraude nas eleições venezuelanas de julho de 2024, que mantém relações institucionais com o regime de Díaz-Canel em Cuba e que nunca, em nenhum comunicado oficial, qualificou Nicolás Maduro como ditador, esse partido acordou domingo passado com uma súbita e urgente preocupação com a saúde da democracia europeia. A coerência não é um valor, é uma ferramenta. Quando serve, usam. Quando não serve, guardam na gaveta.
Orbán era um líder eleito que, goste-se ou não de suas políticas, venceu quatro eleições consecutivas sob supervisão internacional. Seu crime, aos olhos da imprensa progressista global e dos seus aliados no mundo, era recusar-se a seguir o script de Bruxelas: não quis abrir fronteiras indiscriminadamente, não engoliu certas agendas culturais que vieram embrulhadas em papel de regulação europeia, vetou sanções que prejudicavam a economia húngara e manteve relações pragmáticas com Moscou em matéria de energia. Pode-se discutir cada uma dessas decisões, algumas das quais são de fato questionáveis. Mas transformá-lo em símbolo do mal absoluto enquanto se abraça Maduro, que literalmente prende opositores, que expulsou jornalistas, que deixou o país sem luz, sem remédio e sem futuro, isso não é coerência democrática. Isso é seleção de inimigos por conveniência ideológica.
Magyar, o vencedor húngaro, é um liberal pró-União Europeia, pró-OTAN, comprometido com a reaproximação de Budapeste ao mainstream de Bruxelas. Ou seja: o PT festejou a vitória de um candidato que, se fosse brasileiro, seria classificado pelos próprios petistas como "neoliberal", "entreguista" e "representante do capital financeiro". A coerência, como dito, não é um valor permanente. É sazonal. Muda conforme o inimigo do momento. E o inimigo do momento era Orbán, porque Orbán havia se tornado o estandarte de quem resiste à ordem globalista, e resistir à ordem globalista é o pecado capital que o progressismo internacional não perdoa.
Há algo de patético, mas também de revelador, num articulador político recém-empossado que, diante de um Brasil com inflação corroendo o salário real, com uma dívida pública que cresce como erva daninha, com uma política fiscal que os próprios mercados já tratam com ceticismo explícito, escolhe usar sua primeira aparição relevante para comentar eleições na Europa Central. Não é incompetência. É prioridade ideológica. A militância internacional não dorme. A rede de apoio mútuo entre partidos de esquerda ao redor do mundo, que compartilham estratégias, narrativas e às vezes recursos, opera com uma disciplina que os adversários raramente conseguem imitar. Guimarães não estava comemorando Orbán por capricho. Estava marcando presença no grupo.
O eleitor húngaro tomou sua decisão, e isso é inteiramente assunto dele. O que não é assunto do eleitor húngaro é o que o PT acha da decisão dele. E o que deveria ser assunto do PT, urgentemente, é o que o eleitor brasileiro vai achar, daqui a alguns meses, de um governo que celebra eleições estrangeiras enquanto não consegue explicar sua própria conta.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.