A Suíça, aquele país que se vendeu por dois séculos como o santuário da neutralidade armada, da estabilidade monetária e do livre comércio sagrado, está agora sentada à mesa com os emissários americanos pedindo, por favor, que reduzam a tarifa de 39% que Washington cravou nas exportações suíças. Não é negociação entre iguais. É audiência. O suíço chega de terno, pasta na mão, sorriso treinado, e do outro lado o americano joga o pé na mesa e pergunta o que tem para oferecer. Relógios, chocolates, fármacos, máquinas de precisão, tudo entra na conta, e a conta foi unilateralmente reescrita por decreto presidencial.

Vale lembrar o detalhe que a imprensa econômica brasileira finge não ver: a tarifa de 39% imposta à Suíça é maior do que a aplicada a quase qualquer aliado tradicional dos Estados Unidos. Maior que a do Japão, maior que a da União Europeia, maior até que a de várias autocracias que o Departamento de Estado finge condenar nos discursos das segundas-feiras. Por quê? Porque a Suíça tem superávit comercial com os americanos, e na cabeça do atual ocupante da Casa Branca superávit é ofensa pessoal. Esqueça vantagem comparativa, esqueça especialização produtiva, esqueça os manuais de duzentos anos que explicam por que cada nação produz aquilo que produz melhor. No mundo do tarifaço, quem vende mais do que compra é trapaceiro e merece punição.

O mais delicioso da farsa é observar a reação dos suíços. O governo de Berna, em vez de retaliar, em vez de mandar o americano para um lugar bem específico do mapa, optou pela diplomacia da bajulação. Vamos conversar, vamos entender, vamos buscar uma solução mutuamente benéfica. Tradução do dialeto diplomático para o português claro: vamos engolir, vamos pagar, vamos rezar para que o estrago não seja maior do que já é. A Confederação Helvética, que humilhou Napoleão, que sobreviveu a duas guerras mundiais sem entregar a soberania, hoje se curva porque um presidente do outro lado do Atlântico assinou um pedaço de papel.

Siga o dinheiro e a trama fica ainda mais cínica. Quem ganha com uma tarifa de 39% sobre produtos suíços? Não é o trabalhador americano de Ohio que ouve nos discursos de campanha que está sendo protegido. É o concorrente americano protegido da pressão competitiva, é o lobista farmacêutico que financiou a campanha, é o produtor doméstico ineficiente que agora pode cobrar mais caro do consumidor americano sem precisar melhorar nada. A tarifa é um imposto travestido de patriotismo. Quem paga é o cidadão comum no caixa do supermercado, mas quem cobra finge que está defendendo a pátria. Velho truque, roupa nova.

E enquanto isso, do lado de cá do equador, os economistas de banco brasileiros escrevem editoriais celebrando o "realismo" da política comercial americana, como se a violência tarifária fosse virtude administrativa. Esses mesmos sujeitos que durante décadas pregaram livre comércio como dogma agora descobrem, convenientemente, que protecionismo pode ser sofisticado quando feito pelo império. A coerência intelectual desses analistas tem a consistência de pudim derretido ao sol. Servem a quem paga, e quem paga agora gosta de tarifa.

A lição da capitulação suíça é dura mas necessária. Não existe paraíso comercial num mundo onde a maior economia decide unilateralmente as regras. Tratados valem o tempo que o presidente da hora demora a rasgar. Acordos multilaterais valem enquanto convém ao mais forte. E o livre mercado, aquela ideia bonita que enche livros de teoria, sobrevive apenas onde existe poder suficiente para defendê-lo. A Suíça não tem esse poder. Sobra-lhe a calculadora e a paciência. Quando o cassino vira a mesa, até o banqueiro mais rico volta para casa de chinelo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.