A Suncor Energy, gigante das areias betuminosas de Alberta, divulgou números que qualquer analista honesto chamaria de excelentes. Lucro por ação acima da previsão, geração de caixa robusta, produção operacional dentro do planejado. E mesmo assim, as ações caíram. Quer dizer, alguma coisa precisa ser dita sobre um sistema financeiro em que entregar resultado virou motivo de suspeita e bater meta virou pretexto para realização de lucros. Não é a Suncor que está fora do prumo. É o pregão que aprendeu a torcer o nariz para empresas que insistem em fazer aquilo que empresas deveriam fazer: ganhar dinheiro vendendo um produto que o mundo inteiro consome diariamente.
Olha, há um fenômeno fascinante acontecendo no mercado de capitais da última década, e ele não se explica por planilha. Companhias de petróleo que tiram do chão a substância que move caminhão, avião, navio, usina, agricultura e absolutamente tudo o que sustenta a vida moderna estão sendo precificadas como se fossem fabricantes de carruagem em véspera da invenção do automóvel. Enquanto isso, empresas que queimam capital para produzir painel solar com subsídio chinês e bateria com lítio extraído por trabalho semiescravo no Congo são tratadas como o futuro da humanidade. A distorção não veio do nada. Ela foi fabricada. Fundos de pensão são pressionados a desinvestir em fósseis, agências regulatórias adotam critérios ESG que penalizam quem perfura, bancos centrais sinalizam que crédito para óleo e gás é politicamente inconveniente. O resultado é uma alocação de capital que desafia a realidade material da economia.
Me diz uma coisa: como é possível que o barril de petróleo continue indispensável para tudo o que importa, que a demanda global siga crescendo ano após ano, que a OPEP+ continue ditando preços porque sabe que ninguém vai parar de comprar, e ainda assim o investidor seja convencido de que petroleira é investimento de risco terminal? A resposta está naquilo que não se vê na manchete. Os mesmos governos que assinam acordos climáticos voam de jato particular para cúpulas em Davos. Os mesmos fundos que dizem boicotar fósseis compram dívida soberana de países que subsidiam combustível. A narrativa serve para extrair capital barato das empresas produtivas e canalizar para projetos que dependem de tesoura fiscal para sobreviver. Siga o dinheiro e você verá que a economia verde é, antes de qualquer coisa, uma transferência colossal do contribuinte para o lobista bem conectado.
A Suncor, no fim das contas, é o lembrete inconveniente de que a economia real ainda é movida por gente que tira coisa do chão, transforma, transporta e vende. Não é movida por discurso de painel, não é movida por meta de descarbonização redigida em Bruxelas, não é movida por relatório de sustentabilidade impresso em papel feito de madeira cortada com motosserra a diesel. Há uma sabedoria antiga, daquelas que toda geração precisa redescobrir porque acha que inventou tudo do zero, que diz o seguinte: antes de derrubar a cerca, descubra por que ela foi construída. Antes de demonizar a indústria que sustenta a civilização, tenha um plano realista para substituí-la. Como ninguém tem, o que sobra é teatro. E o teatro, como toda peça, custa caro para quem paga ingresso.
O recuo das ações apesar dos bons números expõe a doença, não a saúde. Expõe um mercado que internalizou a culpa fabricada por ativistas profissionais, ONGs financiadas por bilionários com interesses cruzados e burocratas multilaterais que nunca passaram um dia sequer numa refinaria. Quando o investidor castiga lucro genuíno em nome de virtude performática, ele está dizendo que prefere prejuízo virtuoso a ganho ofensivo. É uma inversão moral que teria escandalizado qualquer comerciante do século dezenove. Hoje é tratada como sofisticação. Sofisticação, aliás, é a palavra que os tolos usam quando querem fingir que sua tolice é refinada.
Resta o fato bruto, e o fato bruto não pede licença para existir. A Suncor entregou. O caixa está lá. O barril continua sendo bombeado, refinado, transportado e queimado em cada canto do planeta. Quem comprou na queda comprou ativo produtivo descontado por motivo ideológico. Quem vendeu vendeu fundamento por narrativa. Daqui a alguns anos, quando a poeira do teatro climático baixar e a realidade material cobrar a fatura, alguém vai contar essa história como se fosse óbvia. Era óbvia o tempo todo. Só não enxergava quem não queria enxergar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.