A notícia veio embrulhada no papel de presente da temporada: inteligência artificial. A SurgePays, empresa americana de telecom pré-pago e fintech de subsistência, contratou uma agência chamada BrandRap para desenvolver um motor de decisão baseado em IA. O comunicado é genérico ao ponto da poesia: vai otimizar aquisição de clientes, melhorar conversão, refinar segmentação. Em português claro: vai fazer o que qualquer planilha decente já faz há vinte anos, só que agora com três letras que fazem o investidor babar.
Olha, ninguém precisa ser engenheiro para enxergar o roteiro. Empresa de capitalização modesta, receita pressionada, ação patinando há trimestres, e de repente surge o anúncio salvador. Não é a primeira vez que isso acontece, e não será a última. Nos anos noventa bastava colocar ponto-com no nome para a ação dobrar; em 2017 era blockchain; em 2021 era metaverso; agora é IA. A casca muda, o miolo é o mesmo: vender narrativa enquanto se posterga a conversa desagradável sobre fluxo de caixa.
Quer dizer, vamos seguir o dinheiro. Quem ganha com esse contrato? A BrandRap, óbvio, que fatura um projeto de consultoria com etiqueta premium. A diretoria da SurgePays, que justifica bônus apontando para a inovação anunciada. Os fundos especulativos que pegaram a ação na baixa e agora esperam o spike pós-release. E quem paga? O acionista minoritário que comprou no topo achando que estava embarcando no foguete da próxima Nvidia, e o cliente final dos serviços pré-pagos, geralmente gente de baixa renda, que vai continuar pagando a mesma tarifa enquanto o algoritmo aprende a vender mais para ele com menos esforço comercial.
O detalhe que ninguém quer comentar é o seguinte: motor de decisão com IA não é tecnologia, é commodity. Existem dezenas de plataformas prontas, de código aberto inclusive, capazes de fazer o que esse contrato promete. Contratar uma agência terceira para construir do zero algo que já existe em prateleira é ou inépcia gerencial, ou teatro corporativo destinado ao mercado de capitais. Apostaria na segunda hipótese. Empresa que precisa anunciar publicamente que vai usar IA é, quase por definição, empresa que ainda não sabe usar IA. As que sabem, fazem em silêncio e mostram resultado no balanço.
Há ainda a camada mais profunda, que é cultural. A palavra inteligência artificial virou o equivalente moderno da relíquia sagrada vendida nas feiras medievais: ninguém sabe direito o que é, ninguém audita, mas paga-se caro porque o pregoeiro garante que opera milagres. O resultado é um mercado financeiro inteiro funcionando na base da fé, com analistas de bancos repetindo press releases como se fossem profecias, e reguladores incapazes de distinguir inovação genuína de marketing turbinado. Enquanto isso, o pequeno empresário que entrega resultado real, sem três letras mágicas no comunicado, fica esquecido no canto do mercado de balcão.
A pergunta honesta que ninguém faz é simples: se esse motor de decisão fosse mesmo transformador, por que anunciar antes de entregar? Empresa séria mostra o produto pronto, mostra o impacto no lucro, mostra o cliente satisfeito. Empresa que vende a expectativa antes do fato está, na prática, emitindo uma moeda nova lastreada em promessa. E moeda lastreada em promessa, a história ensina, sempre acaba do mesmo jeito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.