A SuRo Capital, gestora especializada em participações em empresas de tecnologia ainda não listadas, divulgou que o valor do patrimônio líquido por ação atingiu o maior nível de sua história no primeiro trimestre de 2026. O mercado reagiu com a euforia de praxe, os analistas saudaram a "reprecificação dos ativos privados" e os investidores institucionais bateram palmas para o gráfico ascendente. Acontece que o gráfico ascendente, hoje, é praticamente uma exigência regulatória do otimismo. Quando a base monetária do mundo dobrou em uma década, qualquer ativo que não suba virou notícia ruim. Subir virou o novo estagnar.

Olha, é preciso entender o que se vê e o que ninguém quer ver. O que se vê é o NAV recorde, o release triunfante, o CEO sorrindo no earnings call. O que não se vê é a régua com que esse patrimônio é medido. Empresas privadas, por definição, não têm preço público diário. O valor delas é estimado por modelos internos, comparáveis selecionados e suposições generosas sobre múltiplos futuros. É o tipo de marcação a mercado que, quando o vento sopra a favor, vira recorde, e quando vira, vira write-down silencioso enterrado em nota de rodapé do 10-K. A diferença entre patrimônio real e patrimônio contábil em fundos de venture é o tamanho da fé do auditor naquele trimestre.

Quer dizer, o ciclo é sempre o mesmo e ninguém aprende. Banco central derruba juros, capital barato corre atrás de retorno, retorno só aparece em ativos de risco, ativos de risco inflam, gestoras de venture marcam tudo para cima, executivos recebem bônus baseados no NAV inflado, investidores entram tarde achando que entraram cedo, banco central sobe juros para apagar o incêndio que ele mesmo ateou, marcação despenca, alguém perde tudo, e na próxima rodada o discurso recomeça com a mesma inocência ensaiada. Recorde de NAV no topo do ciclo é menos motivo de celebração e mais sinal de alerta para quem leu a história econômica fora dos manuais sancionados.

Me diz uma coisa, quem ganha de verdade nesse arranjo? A resposta está, como sempre, em seguir o dinheiro. A gestora cobra taxa de administração sobre o patrimônio sob gestão, então NAV maior significa receita maior independentemente de qualquer realização. Os executivos têm pacotes atrelados ao desempenho contábil, então o incentivo para marcar generosamente é estrutural, não moral. Os investidores institucionais, por sua vez, mostram aos seus próprios cotistas que escolheram bem, e o ciclo de autoelogio se retroalimenta. O cotista final, aquele sujeito anônimo cuja aposentadoria está empilhada em algum fundo de fundos, é o último a saber e o primeiro a pagar a conta quando o vento muda.

O fato concreto é que recordes de patrimônio em ambiente de liquidez fabricada não medem prosperidade, medem temperatura monetária. A riqueza autêntica nasce da poupança voluntária aplicada em projetos produtivos validados pelo cálculo econômico de preços livres. O que vemos hoje é outra coisa: é a inflação dos ativos disfarçada de criação de valor, é a marcação a modelo travestida de marcação a mercado, é o entusiasmo do trimestre vendido como tendência secular. Quando os juros reais voltarem a doer, e voltarão, descobriremos quanto desse recorde era patrimônio e quanto era apenas régua deformada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.