Existe uma tradição muito antiga de confundir ultimato com diplomacia, e os Estados Unidos desenvolveram essa confusão ao nível da arte institucional. Quando uma delegação chega à mesa com uma frota de porta-aviões ancorada do lado de fora, o que acontece não é negociação, é catequese armada. E quando o catecúmeno se recusa a se converter, o que vem a seguir não é surpresa para ninguém que tenha prestado atenção à lógica dos últimos meses. O Estreito de Ormuz está bloqueado. Vinte por cento do petróleo marítimo do mundo acordou hoje com a Marinha americana dizendo que nenhum navio entra, nenhum navio sai, sem sua autorização.
O que a Bloomberg noticia com tom de relatório técnico é, na prática, a maior intervenção voluntária num mercado de energia desde que Richard Nixon institituiu o controle de preços em 1971. A diferença é que Nixon pelo menos estava tentando segurar a inflação dentro de casa. O que se faz agora em Ormuz é usar o preço do petróleo mundial como arma de guerra, com toda a complicação moral e econômica que isso carrega. Quando você barra o transporte de vinte milhões de barris por dia, não está punindo apenas o regime iraniano. Está punindo o motorista da Índia, o agricultor da Tailândia, a dona de casa da Polônia e, numa ironia que os planejadores de Washington preferem não discutir em voz alta, o próprio consumidor americano que vai abastecer na semana que vem.
O que se vê são os comunicados presidenciais e os gráficos do Brent subindo dez, treze por cento na abertura. O que não se vê é a cadeia inteira de custos invisíveis que um bloqueio naval deflagra: fretes marítimos que vão ao teto, insumos agrícolas que encarecem porque fertilizante viaja em navio, manufatura asiática que para porque energia não chega, e inflação que aparece nos supermercados de países que mal sabem onde fica o Golfo Pérsico. A intervenção tem rosto, tem autoridade, tem nome de operação militar. As consequências não têm rosto. São difusas, chegam tarde, e quando chegam ninguém lembra quem apertou o gatilho.
As negociações em Islamabade quebraram porque o Irã exigiu o que nenhuma potência ocidental aceitaria sem perda de face: controle do próprio estreito que está sendo bloqueado, reparações de guerra, cessar-fogo no Líbano. São condições maximistas de quem sabe que não tem nada a perder em pedir o impossível quando o possível já foi destruído pelos ataques de fevereiro. Washington, por sua vez, exige o que Teerã jamais entregará sem trocar de regime: o abandono definitivo do programa nuclear. Dois lados com linhas vermelhas genuínas e nenhum mediador com credibilidade suficiente para engolir o orgulho dos dois. O resultado é o que estava escrito desde o primeiro avião decolar em direção às instalações nucleares iranianas: impasse armado, crise de energia, e conta dividida com quem não votou em ninguém dos dois lados.
Há um detalhe que os painelistas da televisão financeira mencionam de passagem e deveriam colocar em letras garrafais: a frota sombria continua operando. Enquanto a Marinha americana monta o bloqueio formal, tankers sem transponder identificável continuam carregando petróleo iraniano para a China por rotas alternativas. O bloqueio oficial é para o mercado legítimo. O mercado ilegal, montado com paciência ao longo de anos de sanções, opera com a habilidade de quem já aprendeu a viver na sombra. Isso significa que o país que mais se beneficia do petróleo iraniano continuará se beneficiando, enquanto os que dependem do mercado regulado, Europa, Japão, Coreia, Índia, arcam com a escassez e com o custo. Siga o dinheiro, como sempre, e você descobre que a sanção pune o aliado e enriquece o adversário.
A pergunta que não aparece em nenhum comunicado oficial é esta: qual é o objetivo mensurável, com prazo e critério de sucesso, dessa escalada? Porque toda vez que uma grande potência bloqueia um estreito sem endereço de saída definido, o que se cria não é pressão, é caos permanente institucionalizado. O caos tem um custo diário que não está no orçamento de defesa americano mas aparece no índice de inflação de países que nem participam do conflito. A civilização tem exatamente uma passagem de vinte quilômetros de largura entre o Golfo Pérsico e o resto do mundo, e hoje alguém decidiu sentar em cima dela. O preço dessa cadeira não é cobrado em Washington. É cobrado em todo lugar ao mesmo tempo, de todo mundo ao mesmo tempo, sem aviso e sem recurso.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.