O homem que queria governar a Califórnia saiu pela porta dos fundos no domingo, com um comunicado em que pedia desculpas à família, à equipe e aos apoiadores por "erros cometidos". Erros. Essa palavra faz um trabalho pesado. Quando você deixa o pão queimar, cometeu um erro. Quando você bate o carro na garagem, cometeu um erro. Quando as alegações que chegam ao público são de agressão sexual e a pressão política se torna insuportável, "erros" é o eufemismo mais caro da temporada política americana.

Swalwell não era um político qualquer. Era um dos rostos mais visíveis do progressismo californiano, um defensor vocal de causas que ele mesmo elegeu como marcas identitárias de sua carreira, entre elas a proteção das mulheres contra exatamente o tipo de comportamento que agora lhe é atribuído. Há uma palavra para isso, e não é "contradição" porque contradição sugere acidente. O que se vê aqui é algo mais antigo, mais previsível, quase tedioso de observar: o padrão do pregador que prega o que não pratica, do legislador que escreve as regras que não cumpre, do homem que sobe ao púlpito justamente porque o púlpito lhe oferece cobertura.

A política progressista americana construiu nas últimas décadas um capital moral imenso em torno de determinadas causas. Esse capital tem uma função que vai além do simbólico: ele funciona como blindagem. Quem ergue a bandeira certa, usa o vocabulário certo, aparece nos eventos certos, acumula uma espécie de crédito moral que serve de amortecedor quando a vida privada não corresponde ao discurso público. O crédito vai sendo gasto, a conta vai sendo zerada, e enquanto isso o político segue fazendo carreira. O problema começa quando o crédito acaba antes da carreira.

O que acontece a seguir é sempre a mesma coisa: as mesmas pessoas que transformaram o "acredite nas mulheres" em slogan de campanha ficam subitamente interessadas em devido processo, em contexto, em complexidade. O princípio que era absoluto ontem vira relativo hoje, dependendo de quem está sendo acusado. Isso não é hipocrisia no sentido vulgar, é algo mais estrutural, é a lógica inevitável de qualquer sistema que usa a moralidade como instrumento de poder em vez de critério de conduta. Quando a moral serve ao poder, ela se dobra onde o poder precisa que ela se dobre.

Na Califórnia de 2026, com seu aparato progressista, suas coalizões identitárias e sua hegemonia cultural aparentemente incontestável, a suspensão da campanha de Swalwell é ao mesmo tempo um escândalo e uma nota de rodapé. Um escândalo porque envolve alegações sérias contra uma pessoa pública. Uma nota de rodapé porque o ciclo é conhecido demais para chocar. O político cai, a causa sobrevive intacta, o movimento segue sem precisar fazer nenhuma autocrítica estrutural, nenhum exame de como seus mecanismos de proteção funcionam, ou disfuncionam, dependendo de quem precisa ser protegido.

Quer dizer, o homem pediu desculpas por "erros". A Califórnia vai eleger outro alguém com as mesmas bandeiras, o mesmo vocabulário e as mesmas certezas morais. E o ciclo, como sempre, recomeça do zero, porque nenhuma lição foi aprendida, nenhuma conta foi fechada com honestidade. O verdadeiro escândalo não é o que Swalwell fez. É o sistema que o produziu, o promoveu e agora o descarta como se ele fosse a exceção, quando toda a evidência histórica sugere que ele é, lamentavelmente, a regra.

Com informações do ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.