O drone iraniano que caiu em Dubai no dia 28 de fevereiro não destruiu nenhum prédio importante. Destruiu uma ilusão. Durante décadas, Dubai vendeu ao mundo a imagem de uma praça financeira impermeável ao caos regional, uma espécie de reduto de ordem no meio do deserto, onde o xeique e o trader de commodities e o empresário libanês em fuga podiam conviver em paz sob o guarda-chuva de um Estado que, ao menos, sabia onde terminar. A imagem era boa. A imagem não sobreviveu ao primeiro fragmento de metal que caiu do céu.
O que aconteceu nas semanas seguintes é instrutivo para quem ainda acha que capital tem pátria, lealdade ou sentimentalismo. As famílias ricas do Golfo, os gestores de family offices, os traders de petróleo e de grãos que operavam de Dubai começaram a ligar para escritórios em Zurique e para consultores em Genebra com uma pergunta objetiva: qual é o processo para estabelecer residência em Zug? Não em Londres, não em Singapura, não em Miami. Em Zug. Uma cidade que a maior parte dos brasileiros não saberia apontar no mapa, com 135 mil habitantes, sem aeroporto internacional próprio, sem linha de metrô, sem nenhum dos atrativos cosmopolitas que os jornalistas de estilo de vida associam à "qualidade de vida". O que Zug tem é outra coisa: alíquota corporativa de 11,85%, estabilidade institucional real, sigilo bancário que ainda significa alguma coisa e uma tradição de não se meter na vida de quem está tentando trabalhar. É isso. É tudo. É suficiente.
O diretor financeiro do cantão, com uma honestidade refrescante que raramente se vê em burocratas, declarou sem rodeios: "a realidade é que Zug está se beneficiando disso." Nenhum eufemismo, nenhuma nota de pesar performático sobre as vítimas do conflito. Apenas o reconhecimento de que o sistema funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Um ambiente de baixa tributação, regras claras e respeito à propriedade age como ímã em momentos de incerteza. Enquanto isso, do outro lado do mundo, governos que passam décadas discutindo como extrair mais do que já extraem ficam genuinamente surpresos quando as pessoas fogem. A surpresa, essa sim, é o escândalo.
Vale seguir o rastro concreto para entender a dimensão do movimento. Havia fila na porta de um apartamento de dois quartos em Zug, durante um open house. A pessoa que estava atrás na fila tinha chegado de avião de Dubai naquela manhã. Um apartamento de dois quartos. Não uma mansão, não um palácio, não uma propriedade de trofeu para guardar em portfolio. Um apartamento funcional em uma cidade funcional onde as regras são conhecidas de antemão e o governo não muda as leis toda vez que precisa tapar um buraco no orçamento. A demanda foi tão intensa que o inventário de imóveis em Zug praticamente zerou, e o excesso de procura transbordou para Lugano, no sul da Suíça, onde ainda havia cerca de 300 propriedades disponíveis e onde residentes estrangeiros podem negociar acordos de tributação por forfait com certa rapidez. O capital, quando decide se mover, não perde tempo.
Existe uma lição aqui que os construtores de impérios tributários jamais vão aprender, não porque sejam burros, mas porque aprender essa lição exigiria que eles mudassem o que não querem mudar. A lição é simples: capital não é árvore. Não tem raiz. Não precisa de autorização para se mover. Toda a arquitetura de controle, de tributação progressiva, de "contribuição solidária", de CSLL sobre lucros no exterior, de qualquer outra engenharia fiscal com nome simpático foi construída sobre o pressuposto implícito de que o capital vai ficar quieto enquanto é esfolado. Zug existe para lembrar que esse pressuposto é falso. E Dubai, agora assustada, existe para lembrar que até os que achavam que tinham montado o ambiente perfeito podem perder tudo em uma noite de drones iranianos.
O Brasil assiste a esse movimento com a indiferença de quem nunca conseguiu competir nessa liga. Enquanto Zug atrai os endinheirados do Golfo com uma alíquota corporativa abaixo de 12%, aqui se discute seriamente se 34% de imposto sobre o lucro da pessoa jurídica é suficiente ou se precisa de mais "progressividade". A resposta do mercado global a essa discussão é a fila do aeroporto, o capital que sai, o empresário que domicilia a holding em Lisboa, o investidor que prefere Dublin. Não é traição, não é falta de patriotismo, não é ganância. É a mesma lógica que faz o sujeito de Dubai embarcar num avião para ver um apartamento de dois quartos em Zug numa segunda de manhã. Capital vai onde é bem-vindo. Onde não é bem-vindo, capital vira estatística de evasão em algum relatório que ninguém vai ler.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.