Oito empresas que deveriam estar se digladiando por preço, qualidade e inovação resolveram montar juntas um centro de cibersegurança para o setor de comunicações, com T-Mobile à frente da fotografia. O anúncio vem embrulhado no papel de presente de sempre, defesa nacional, proteção do consumidor, ameaça chinesa, ameaça russa, ameaça do hacker genérico que mora no porão da mãe. Quer dizer, oito concorrentes descobriram simultaneamente que cooperar é mais bonito do que competir. Que coincidência comovente.
Existe uma regra antiga que nunca falha: quando empresários do mesmo ramo se reúnem, ainda que seja para tomar chá, o assunto raramente é o bem do público. E quando essa reunião é feita às claras, com logotipos lado a lado e comunicado oficial, é porque já tem alguém no governo segurando a porta. Cartéis explícitos não sobrevivem sem padrinho regulatório. Esse centro não é um clube de filantropos do firewall, é uma plataforma de padronização que vai definir, na prática, quais fornecedores entram, quais ficam de fora, e quais pequenas empresas serão consideradas "não conformes" da próxima rodada de exigências federais.
Olha, o que se vê é o anúncio bonito, o palco, o discurso sobre proteger a infraestrutura crítica. O que não se vê é a startup de segurança que nunca vai conseguir certificação porque os critérios serão escritos pelos próprios incumbentes. O que não se vê é a operadora menor que terá de pagar pedágio para acessar os mesmos protocolos. O que não se vê é o consumidor final, que vai bancar tudo isso embutido na fatura, com a vantagem adicional de continuar sendo vazado de tempos em tempos, como sempre foi, porque o problema nunca foi falta de comitê, foi excesso de complacência blindada por relações públicas.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Centros assim viram, em poucos meses, instrumentos de lobby coletivo. Pedem subsídio federal para "pesquisa", arrancam isenção fiscal para "infraestrutura defensiva", influenciam normas que viram lei, e quando a lei aperta, ela aperta primeiro o concorrente menor, o estrangeiro indesejado e o entrante incômodo. O incumbente, esse, já cumpre as exigências antes mesmo de elas existirem, afinal foi ele quem as redigiu. É a velha dança entre balcão corporativo e gabinete público, vestida agora de capacete digital.
Tem ainda a parte cultural do teatro, talvez a mais perigosa. Vende-se ao público a ideia de que segurança é algo que se compra coletivamente, num arranjo entre gigantes abençoados pelo Estado, e não algo que se conquista com concorrência feroz, responsabilidade civil pesada e clientes livres para abandonar quem falhar. Quando você convence o cidadão de que ele precisa ser protegido por um consórcio em vez de escolher entre fornecedores, você o infantiliza, e cidadão infantilizado aceita preço maior, serviço pior e vigilância em nome do próprio bem. Foi assim que se construiu cada andar do despotismo confortável que hoje chamam de modernidade.
No fim, esse centro vai entregar relatórios trimestrais lindíssimos, slides com gráficos azuis, parcerias com agências federais e nenhuma redução real do número de vazamentos. Vai entregar, porém, com precisão cirúrgica, barreiras de entrada mais altas, margens mais gordas e um novo intermediário regulatório entre você e o seu próprio pacote de dados. Cibersegurança de verdade se faz com responsabilização, competição e clientes capazes de processar quem falha. O resto é cartel com crachá.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.