O pregão fechou em alta e o índice subiu 0,26%. Parece pouco, quase decoração de rodapé em site de finanças. Só que estamos falando da bolsa da ilha que fabrica os semicondutores dos quais depende, literalmente, seu celular, seu carro, a inteligência artificial que promete substituir metade dos empregos e o míssil que a superpotência do momento pretende usar contra o inimigo do momento. Um quarto de ponto percentual em Taipé move mais riqueza real do que uma semana inteira de circo tributário em Brasília.
E aqui está a piada que ninguém quer contar. Taiwan não virou o coração do capitalismo global porque algum ministério esclarecido desenhou um plano quinquenal. Virou porque, décadas atrás, deixaram engenheiros, empresários e poupadores tomarem decisões descentralizadas sobre onde alocar capital, com regras estáveis, imposto civilizado e uma moeda que não era estuprada mensalmente por bancos centrais criativos. O resultado é uma ilha do tamanho de um estado brasileiro médio produzindo mais valor do que continentes inteiros povoados por burocratas de terno.
Enquanto isso, a narrativa oficial insiste que o segredo taiwanês é a tal política industrial, o Estado indutor, o planejamento estratégico. Siga o dinheiro e a lenda desmonta. Os subsídios existem, sim, mas o motor é a acumulação privada de capital, o respeito ao contrato, a proteção da propriedade intelectual e uma cultura de trabalho que nenhum programa social replica. O que se vê é a fábrica reluzente e a manchete sobre incentivos. O que não se vê é a poupança de três gerações de famílias, o capital paciente e a ausência de um governo achando que sabe mais que o mercado sobre qual chip fabricar.
O detalhe geopolítico que faz o índice subir e descer é que a superpotência vizinha declara todo mês que Taiwan é província rebelde, e a outra superpotência declara que defende a democracia asiática, quando na verdade defende o oligopólio da fundição de silício. Se um míssil errar o alvo por cinco quilômetros, o mundo trava. Não é retórica: é cadeia produtiva. E toda a fantasia de autonomia estratégica europeia, de reindustrialização americana, de soberania tecnológica brasileira, esbarra no mesmo detalhe embaraçoso, uma ilha onde ainda se acredita, com constrangimento, que preço é informação e que empresário não é criminoso.
Repare no contraste doméstico e o riso fica amargo. Aqui, um pregão positivo depende do humor do ministro da Fazenda, do último balão de ensaio sobre nova taxação, da fofoca sobre quem vai comandar qual autarquia. Lá, sobe porque uma empresa privada anunciou encomenda bilionária de um cliente privado, precificada em moeda que ninguém suspeita que amanhecerá valendo trinta por cento menos. Aqui, chamam isso de neoliberalismo selvagem. Lá, chamam de manhã de terça-feira.
O recado do pregão de hoje, portanto, não é sobre um índice qualquer piscando verde. É sobre quem, silenciosamente, ainda produz o mundo enquanto o resto discute pronome, cota e imposto sobre bilionário imaginário. A alta é modesta, o aviso é brutal, o século pertence a quem deixar as pessoas trabalharem em paz.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.