O pregão de Taipé fechou com alta de 0,42% no índice Taiwan Weighted, número modesto na superfície, sintomático no subsolo. Quem olha só o percentual perde o essencial. O essencial é que uma ilha de vinte e três milhões de habitantes, do tamanho da Bélgica, continua empurrando o planeta para cima mesmo sob ameaça permanente de invasão, mesmo sob tarifaço americano, mesmo sob o barulho constante de que a globalização acabou. O mercado lá sobe porque o mercado lá produz o que o resto do mundo depende para existir, e isso, senhoras e senhores, é o tipo de coisa que nenhum comitê central em Pequim, Washington ou Brasília consegue replicar por decreto.
A piada, se é que se pode chamar assim, é que Taiwan não tem petróleo, não tem terras raras em abundância, não tem território generoso, não tem burocracia amiga nem banco central criativo. Tem o quê, então? Tem propriedade privada respeitada, tem contrato cumprido, tem judiciário que funciona e tem uma cultura de trabalho que os nossos iluminados tropicais tratariam como opressão neoliberal. Em cima disso, a TSMC virou a empresa mais estratégica do planeta, fabricando os chips que fazem funcionar desde o seu celular até o caça americano. Quer dizer, enquanto aqui se discute se pobre vai poder comprar feijão, lá se decide se a próxima geração de inteligência artificial nasce ou não nasce.
Olha, o detalhe fiscal que ninguém quer discutir é que essa alta de 0,42% acontece num contexto em que o dólar está volátil, em que o Fed ainda não decidiu se corta juros ou finge que vai cortar, e em que o tarifaço de Washington deveria, em tese, punir exportadores asiáticos. Deveria. Mas não pune, porque o que Taiwan vende ninguém mais fabrica, e taxar insumo estratégico é taxar a própria indústria americana no fim da cadeia. O imposto é sempre pago por alguém, e quando o governo ianque coloca tarifa em chip taiwanês, quem sangra é o consumidor de Ohio, não o engenheiro de Hsinchu. Essa é a parte que não sai nos gráficos animados da CNBC.
Me diz uma coisa, por que será que um país cercado por hostilidade militar, sem recurso natural e sem peso demográfico consegue pregões consistentes, enquanto o Brasil, com tudo que Deus deu, segue dependendo de humor de ministro do Supremo para o Ibovespa não desabar? A resposta incomoda quem vive do Estado: a diferença não é geografia, não é sorte, não é conjuntura. É instituição. É regra clara. É previsibilidade. Taiwan entendeu cedo que o capital é covarde, foge de onde é maltratado e prospera onde é respeitado. O nosso Planalto ainda acha que capital é gado que se toca na marra para onde o governo quer.
E tem ainda a camada geopolítica, que o mercado taiwanês precifica todo santo dia sem histeria. Xi Jinping promete reunificação, a frota americana circula o estreito, o Japão rearma, a Coreia do Sul fica atenta, e o índice sobe 0,42%. Por quê? Porque o investidor sério já percebeu que invasão custaria à China a própria cadeia produtiva que sustenta a classe média chinesa, e que Pequim, apesar do discurso marcial, sabe fazer conta. O comunista contemporâneo é pragmático até o osso quando o assunto é o próprio bolso; a ideologia some quando o PIB ameaça. Essa é uma lição que deveria ser emoldurada em toda embaixada brasileira.
No fim, o pregão de hoje é um recado silencioso e educado ao ocidente arrogante: o centro de gravidade do mundo se desloca, e ele se desloca para onde há liberdade econômica com seriedade cultural, não para onde há discurso progressista com déficit primário. Enquanto a Europa regulamenta até o formato do plugue e o Brasil debate se patrão é vilão, uma ilha sitiada produz riqueza, paga seus compromissos e ainda sobe na bolsa. Zero vírgula quarenta e dois por cento de alta em Taipé vale mais, em civilização, do que mil discursos sobre justiça social em Brasília.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.