O pregão de Taipé fechou em alta de 0,91% e o noticiário tratou como dado de rodapé, item de boletim financeiro entre cotações de soja e petróleo. Quer dizer, a ilha que produz mais de 60% dos semicondutores avançados do mundo subiu quase um por cento em um único dia, e a imprensa brasileira despacha o assunto como se fosse variação de preço de alface na Ceasa. Olha, existe uma certa cegueira voluntária quando o fato concreto contradiz a narrativa de que o futuro pertence aos blocos estatais e aos planejadores centrais. Taiwan é exatamente o oposto disso, e por isso incomoda.

O detalhe que ninguém quer encarar é que essa ilha minúscula, sem recursos naturais relevantes, sem mercado interno gigante, sem nenhuma das vantagens que economistas de manual atribuem ao crescimento, virou indispensável ao planeta porque permitiu que empresas privadas competissem ferozmente, errassem, falissem e reinvestissem capital em ciclos sucessivos de tentativa e erro. Não houve ministério da inteligência artificial decretando metas de wafers por trimestre. Houve gente arriscando dinheiro próprio em apostas que poderiam quebrar e às vezes quebraram. O resultado dessa ordem que ninguém desenhou é uma cadeia produtiva tão sofisticada que nem os Estados Unidos conseguem replicar mesmo despejando bilhões em subsídios da CHIPS Act.

E aqui mora a piada amarga. Washington gastou mais de cinquenta bilhões de dólares tentando trazer fábricas de chips para o Arizona e descobriu, depois de anos de cerimônia política, que faltava mão de obra técnica, que os custos eram o triplo do previsto e que os engenheiros taiwaneses precisavam ser importados para ensinar os americanos a operar máquinas que só Taiwan sabe operar direito. Me diz uma coisa, se subsídio bilionário fabricasse competência tecnológica, a União Soviética teria colonizado Marte em 1975. Não fabrica. Capital político não substitui capital humano acumulado em décadas de competição real, e Taipé prova isso todo dia que abre o pregão.

O movimento de hoje, modesto em percentual, é sintomático de algo maior. Investidores globais continuam apostando em Taiwan apesar do risco geopolítico evidente, apesar dos exercícios militares chineses no Estreito, apesar das ameaças recorrentes de Pequim. Por quê? Porque a alternativa, depender de uma cadeia produtiva controlada por um partido único que detém 100% do poder e zero accountability, é pior que o risco de um conflito armado. O capital, quando livre para escolher, escolhe a ilha onde a propriedade privada vale alguma coisa e foge da terra firme onde o governo pode confiscar uma empresa de tecnologia em uma sexta-feira à tarde por motivo de segurança nacional inventado durante o almoço.

Enquanto isso, o Brasil discute se a Embraer deve receber mais dinheiro público para concorrer com a chinesa Comac, debate se o BNDES deve fabricar campeões nacionais e cogita ressuscitar a velha política industrial dos anos setenta com nome novo. A lição que Taipé oferece de graça, escrita em letras garrafais no painel da bolsa todos os dias, é que ninguém escolhe um vencedor tecnológico por decreto. O vencedor é aquele que sobreviveu a milhares de batalhas que o Estado não viu, não financiou e não atrapalhou. Tudo que se vê na manchete de hoje, esses 0,91%, é a ponta visível de um iceberg invisível feito de empresas que faliram em silêncio para que outras prosperassem em silêncio. É o que se vê e o que não se vê, encenado em código aberto na tela de Bloomberg.

O recado para quem ainda acredita em mão estatal forte como motor do desenvolvimento é simples e inconveniente. A ilha que mais importa para o século vinte e um não tem ministério do planejamento, não tem plano quinquenal, não tem estatal de chip e não tem subsídio cruzado para campeão nacional. Tem mercado, tem propriedade, tem competição e tem medo legítimo do vizinho totalitário ao lado, o que, ironicamente, é o melhor antídoto contra a tentação de imitar o vizinho. Quem quiser entender o futuro deveria parar de ler discurso de ministro da fazenda e começar a ler o pregão de Taipé. Lá está escrito, em mandarim e em alta de 0,91%, tudo que os planejadores brasileiros se recusam a aprender.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.