As ações de Taiwan fecharam o pregão em queda e o Taiwan Weighted recuou 0,88%, e o leitor é convidado pelo noticiário a tratar isso como se fosse um terremoto econômico. Não é. Um recuo de menos de um ponto percentual numa ilha que concentra a produção dos chips mais avançados do planeta é ruído de fundo, é o mercado respirando. O que deveria assustar qualquer um que entenda minimamente de economia não é o índice oscilar, é alguém achar que índice não deveria oscilar.

Quer dizer, preço é informação. Cada centavo a mais ou a menos numa cotação carrega dentro de si o julgamento de milhões de pessoas sobre risco geopolítico, expectativa de lucro, custo de capital, apetite chinês pelo estreito, demanda global por semicondutores e mais uma dúzia de variáveis que nenhum ministro, nenhum comitê, nenhuma autoridade monetária consegue processar sozinha. Quando o Taiwan Weighted recua 0,88%, não é desastre, é o sistema fazendo o que só ele sabe fazer, agregar conhecimento disperso em tempo real. Olha, tente substituir isso por um burocrata de gravata decidindo o preço justo das ações da TSMC e você descobre rapidamente a diferença entre uma economia viva e um museu soviético.

O pano de fundo, que o release da agência convenientemente não menciona, é o cerco chinês, a dependência americana de silício taiwanês, o custo de energia pressionando margens e a ressaca das taxas de juros altas que os bancos centrais empurraram goela abaixo do mundo nos últimos anos para consertar a inflação que eles mesmos fabricaram imprimindo dinheiro na pandemia. Siga o dinheiro e você vai encontrar sempre o mesmo padrão, governos criam o problema, governos oferecem a solução, e o investidor paga a conta nas duas pontas. O pequeno recuo de hoje é apenas uma parcela atrasada desse boleto.

E há algo de quase cômico na solenidade com que a imprensa financeira reporta essas oscilações, como se cada décimo de ponto merecesse uma nota de pêsames. O que não aparece na manchete é o que realmente importa, os empregos criados na cadeia de fornecedores, a inovação acumulada em décadas de mercado relativamente livre numa ilha espremida entre gigantes, a riqueza que se multiplicou justamente porque Taiwan não caiu na tentação de planejar sua indústria de cima para baixo como fez a China continental com seus ciclos intermináveis de estímulo e estouro. O que se vê é a queda de 0,88%. O que não se vê é a prosperidade construída precisamente porque o preço pôde cair quando precisou cair.

O investidor sério, o que não lê manchete para tomar decisão, entende que volatilidade não é inimiga, é pedágio. Quem quer retorno sem risco deveria comprar título público e aceitar ser corroído em silêncio pela inflação que o próprio emissor do título fabrica. Quem quer participar da criação genuína de riqueza, aceita que o gráfico não sobe em linha reta, porque a realidade não é linha reta. Mercado que só sobe é mercado manipulado, e manipulação sempre termina mal, pergunte a qualquer bolha que já estourou na história, do tulipa holandesa ao imobiliário americano de 2008.

No fim, 0,88% de queda em Taiwan diz menos sobre Taiwan e mais sobre a patologia do noticiário econômico contemporâneo, viciado em tratar o natural como catástrofe e o catastrófico como natural. Enquanto houver gente livre comprando e vendendo papéis segundo seu próprio julgamento, haverá dias verdes e dias vermelhos, e isso é precisamente o que torna o sistema confiável. Desconfie do pregão que nunca cai, porque atrás dele tem sempre um burocrata com o dedo na balança.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.