O Índice Taiwan Weighted recuou 0,96% e os jornais financeiros classificaram o movimento como "ajuste técnico", aquele eufemismo confortável que serve para qualquer queda que ainda não virou colapso. Acontece que Taiwan não é uma bolsa qualquer. É a praça onde se negociam as ações da empresa que fabrica os semicondutores avançados que fazem funcionar desde o seu celular até os mísseis americanos, passando pelos data centers que treinam toda essa inteligência artificial que prometeram revolucionar a vida do trabalhador e até agora só revolucionou o valor de mercado de meia dúzia de bilionários da Califórnia.
Quer dizer, quando a bolsa que abriga a TSMC tosse, o sistema inteiro respira com dificuldade, e isso deveria ser manchete de capa, não nota de rodapé. Mas a imprensa econômica brasileira, viciada em comentar a cotação do dólar como se fosse novela das oito, prefere ignorar que a economia mundial está pendurada por um fio em uma ilha de 36 mil quilômetros quadrados que a China promete invadir desde antes de a maioria dos analistas de banco terem nascido. Concentração de produção em ponto único de falha geográfica não é eficiência de mercado, é resultado direto de décadas de subsídios cruzados, incentivos fiscais coordenados entre governos asiáticos e captura regulatória travestida de política industrial.
Olha, siga o dinheiro e a coisa fica clara. Os Estados Unidos despejaram dezenas de bilhões no famoso CHIPS Act para tentar repatriar a fabricação de semicondutores, a União Europeia fez o mesmo com seu próprio pacote bilionário, a China gasta o que ninguém sabe direito porque o orçamento de Pequim tem mais buracos do que queijo suíço, e o resultado prático é que Taiwan continua mandando no mercado e cada queda de menos de um por cento na bolsa local faz tremer trilhões em capitalização lá fora. Foram trilhões de dólares de contribuintes do mundo inteiro queimados para descobrir que o conhecimento técnico acumulado em três décadas não se transfere por decreto presidencial nem por subsídio bem intencionado.
Aqui está a lição que ninguém quer ouvir, especialmente os entusiastas brasileiros do "Estado indutor do desenvolvimento" que ainda sonham com uma política industrial de chips no Brasil enquanto a Receita Federal taxa importação de placa de vídeo como se fosse joia de luxo. Indústria de ponta não nasce de plano quinquenal, nasce de décadas de capital paciente, propriedade privada respeitada, judiciário que cumpre contrato, baixa carga tributária sobre investimento e ausência de burocrata achando que sabe melhor do que o engenheiro qual chip o mercado vai querer daqui a cinco anos. Taiwan tem tudo isso, o Brasil não tem nada disso, e a diferença não está em recursos naturais ou tamanho de mercado, está na cabeça das pessoas que escrevem as leis.
O recuo de 0,96% também escancara a fragilidade de um sistema financeiro global inflado por décadas de juros artificialmente baixos, no qual cada empresa de tecnologia vale o que vale porque o dinheiro custou zero por tempo demais. Quando a expansão monetária acaba, e ela sempre acaba, o que parecia inovação sustentável se revela bolha sustentada por crédito barato, e o ajuste vem na forma de quedas que começam pequenas em Taipé, depois passam por Tóquio, depois batem em Wall Street, e por fim chegam à Bovespa fazendo o pequeno investidor brasileiro se perguntar por que sua ação de banco caiu se "aqui não aconteceu nada". Aconteceu sim, só que aconteceu do outro lado do mundo e o Banco Central de cá vai fingir que a culpa foi do clima.
No fim das contas, a queda de Taiwan é um lembrete amargo de que o mercado livre global, aquele que de fato existe, opera apesar dos governos, não por causa deles, e cada tentativa de planejar a cadeia de semicondutores de cima para baixo só comprova mais uma vez que conhecimento disperso em milhões de cabeças não cabe em nenhum gabinete ministerial. Enquanto isso, o brasileiro paga IPI sobre notebook como se estivesse comprando iate, e depois se pergunta por que o país não tem indústria de tecnologia. A resposta está na sua própria pergunta, basta ter coragem de ler.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.