Pois então a TAL Education, aquela empresa chinesa que o Partido Comunista praticamente sentenciou à morte em 2021 quando proibiu o ensino privado com fins lucrativos para alunos da educação básica, acaba de entregar um trimestre que supera as estimativas dos analistas tanto em receita quanto em lucro. Quer dizer, o governo decretou que não se pode mais lucrar ensinando matemática para criança chinesa, e a empresa, quatro anos depois, está ganhando mais dinheiro do que Wall Street apostava. Alguém precisa explicar para o burocrata de Pequim que papel aceita tudo, inclusive canetada, mas o desejo humano de que os filhos aprendam mais que os filhos do vizinho é mais antigo que o próprio Partido.

O fenômeno é pedagógico no pior sentido para quem acredita em planejamento central. A chamada "Double Reduction Policy" foi vendida ao mundo como uma cruzada moral contra a "pressão excessiva" sobre as crianças e contra a "desigualdade" gerada pelo ensino pago. O resultado concreto? As famílias que podiam pagar continuaram pagando, só que agora por tutores clandestinos, plataformas de "enriquecimento cultural", aulas de "desenvolvimento de habilidades não acadêmicas" e outras fantasias linguísticas que enganam o regulador e não enganam ninguém. A TAL apenas fez o que qualquer empresa séria faria diante de uma proibição absurda, reorganizou a vitrine e continuou vendendo o que os pais queriam comprar desde o começo.

E aqui mora a lição que nenhum planejador gosta de ouvir. Quando um governo proíbe uma atividade pela qual milhões de pessoas estão dispostas a pagar voluntariamente, o governo não elimina a demanda, apenas encarece a oferta, empurra parte dela para a informalidade e concentra o que sobra nas mãos de quem tem balanço, advogado e relações políticas para navegar no labirinto. A pequena escolinha de bairro morreu, o professor autônomo foi caçado, e no fim do dia quem ficou em pé foi justamente a corporação gigantesca que o Partido dizia querer enquadrar. Destruíram o concorrente pequeno, preservaram o conglomerado. É sempre assim, em qualquer idioma.

Siga o dinheiro, porque a trilha é sempre eloquente. Com milhões de famílias desesperadas por qualquer veículo legal que ofereça aprendizado de verdade aos seus filhos, as poucas empresas que sobreviveram à limpeza regulatória viraram oligopólio de fato. A TAL hoje fatura em "aulas não curriculares", "conteúdo educacional digital", "serviços de aprendizagem ao longo da vida" e um catálogo de eufemismos que só existe porque a lei criou o incentivo para o eufemismo existir. O efeito líquido da regulação foi transformar um mercado competitivo em renda concentrada. Quem paga a conta é a classe média chinesa, que agora desembolsa mais por menos opção.

Tem ainda o detalhe que ninguém quer encarar. A cultura confuciana leva a educação a sério de um jeito que o Ocidente já esqueceu, e a ideia de que um documento oficial assinado em Pequim vai convencer mãe chinesa a baixar a guarda sobre o futuro do filho é a coisa mais ingênua que se pode imaginar. O costume antecede a lei, a família antecede o Estado, e o afeto dos pais pelos filhos é uma força que nenhum cinco estrelas vermelhas consegue domar. Tentaram domar assim mesmo. Resultado nos balanços trimestrais, todo mundo pode ver.

O que resta então dessa história é um retrato nítido do que sempre acontece quando a canetada tenta substituir a escolha. Perde o pequeno empresário, perde o professor autônomo, perde a família de classe média, e ganha o burocrata que vai "fiscalizar" o setor e a grande empresa que sobrou para ser fiscalizada. Lá e aqui, o roteiro é o mesmo. Só mudam os ideogramas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.