A TD Cowen elevou o preço-alvo da Synchrony Financial e a justificativa cabe numa linha: a empresa está recomprando as próprias ações com vigor. Pronto, está feita a análise. O papel sobe, o analista bate palmas, o investidor abre o champanhe, e ninguém na mesa pergunta a única coisa que importa, que é se a companhia está efetivamente produzindo mais riqueza do que produzia no trimestre passado. A resposta, quase sempre, é não. O que houve foi aritmética. Divida o mesmo lucro por um número menor de ações e veja, ó milagre, o lucro por ação subir. Isto não é crescimento, é maquiagem com cálculo de quarta série.

A recompra de ações, em si, não é pecado. Quando uma empresa gera caixa genuíno, não tem oportunidade melhor de reinvestimento e devolve dinheiro ao acionista comprando seus próprios papéis, está fazendo o que deveria. O problema é quando a recompra vira fim em si mesma, financiada muitas vezes com dívida barata de uma era de juros artificialmente reprimidos, para empurrar o preço da ação no curto prazo e, de quebra, inflar os bônus da diretoria atrelados a metas de lucro por ação. Siga o dinheiro e você encontrará sempre o mesmo arranjo: o acionista de longo prazo aplaude, o executivo embolsa, e a economia real não viu um centavo disso virar fábrica, pesquisa ou produto.

A Synchrony, convém lembrar, é uma financeira de cartão de varejo. Ganha dinheiro cobrando juros de quem compra geladeira em doze vezes na loja de departamento americana. É um negócio perfeitamente legítimo, mas é um negócio que depende, diretamente, de duas coisas: consumidor endividado disposto a continuar se endividando, e spread bancário saudável entre o que ela paga para se financiar e o que ela cobra do coitado que passou o cartão. Quando o analista recomenda o papel pela força das recompras, está dizendo, sem dizer, que não vê muito mais o que elogiar. Não é a carteira crescendo de forma saudável, não é inadimplência caindo, não é conquista de mercado. É a tesouraria trabalhando bem. Há uma diferença abissal entre as duas coisas.

Esta é a doença crônica do capitalismo financeiro da última década e meia, filha bastarda do dinheiro barato imprimido aos baldes pelos bancos centrais depois de 2008 e novamente depois de 2020. Empresas pararam de crescer investindo e passaram a crescer encolhendo. Viraram máquinas de otimização de métricas, não de geração de valor. O executivo moderno não precisa mais ter visão industrial, precisa ter planilha. Recompra aqui, corte de custo ali, aquisição alavancada acolá, e o papel sobe mesmo quando a empresa, examinada por dentro, está parada ou em retrocesso. Quem paga essa festa, no fim das contas, é quem vê o poder de compra do salário evaporando na inflação que financiou o crédito barato que financiou a engenharia financeira.

E aí vem o analista de banco de investimento, com seu terno impecável e seu relatório bem diagramado, e diz que a ação vale mais porque a companhia está comprando de volta os próprios papéis. É como elogiar o fazendeiro que, em vez de plantar mais, simplesmente reduziu o tamanho do terreno para dizer que a produção por hectare subiu. O número fecha, a planilha sorri, e o mercado, esse animal cada vez mais condicionado a reagir a estímulo e não a substância, compra a tese. O investidor experiente sabe ler a diferença. O investidor distraído vai descobrir, como sempre descobre, tarde demais.

No fim, o recado é sempre o mesmo, e é por isto que vale insistir. Preço-alvo baseado em recompra é elogio ao ilusionista, não ao empreendedor. Enquanto o país inteiro discute se o juro sobe ou desce, a verdadeira pergunta, que ninguém faz, é quanto da bolsa americana hoje é crescimento real e quanto é truque de contabilidade financiado com dívida. No dia em que essa conta for feita com honestidade, muita gente vai descobrir que estava comprando espuma achando que era cerveja.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.