A casa de análise americana TD Cowen resolveu elevar a recomendação da gigante do café verde, apostando que a companhia volta a entregar crescimento nos próximos trimestres. O mercado bateu palma, o papel reagiu, e os comentaristas de plantão correram para explicar a obviedade com gráficos coloridos. Pois bem. Vamos ao que interessa, que é o que nenhum desses senhores de gravata vai dizer em voz alta.

Uma rede de cafeterias que cobra trinta, quarenta, cinquenta reais por uma bebida que custa centavos para produzir sobrevive há décadas, expande para todos os continentes, emprega centenas de milhares de pessoas e ainda consegue ser recomendada como compra por analistas que normalmente são pagos para encontrar defeitos. Como isso é possível? A resposta é tão simples que ofende a inteligência dos doutores em macroeconomia: ninguém é obrigado a comprar. O sujeito entra na loja porque quer, paga porque quer, e se acha caro vai embora. O valor não está no grão, não está no leite, não está no copo de papelão reciclável que custa o trabalho de uma floresta. O valor está na cabeça de quem decide gastar. E é essa subjetividade que nenhum planejador central jamais conseguiu calcular, simular ou substituir.

Compare, só por brincadeira intelectual, com qualquer empresa estatal de café que já existiu no planeta. O Brasil teve Instituto Brasileiro do Café, teve cotas, teve queima de safra para sustentar preço, teve burocrata definindo quanto produtor podia plantar e quanto exportador podia mandar para fora. Resultado? Décadas de distorção, contrabando, lobby, propina e produtor quebrado. Quando o Estado saiu da frente, o café brasileiro virou o que sempre foi capaz de ser sem tutor. Enquanto isso, uma empresa privada de Seattle conseguiu transformar o ato banal de tomar café numa experiência que o consumidor paga voluntariamente caro para ter. Curioso, não?

O ponto que a recomendação da TD Cowen revela sem querer é mais profundo do que parece. Quando analistas projetam crescimento para uma empresa, o que estão dizendo é que confiam que ela vai continuar acertando o que milhões de pessoas querem antes que essas pessoas saibam que querem. Isso não se faz por decreto, não se faz por audiência pública, não se faz por conselho deliberativo com representação paritária. Faz-se na tentativa e erro do mercado, com capital próprio em jogo, com prejuízo punindo quem erra e lucro recompensando quem acerta. Tirem essa dinâmica do meio, coloquem um ministério da bebida quente no lugar, e em cinco anos o cidadão estará na fila pegando senha para uma água suja servida em caneca de alumínio amassada.

Há ainda o detalhe que ninguém comenta porque destrói a narrativa preferida da imprensa econômica. Toda vez que essa cafeteria abre uma loja em algum bairro, surge emprego, surge fornecedor, surge fluxo de gente, surge concorrente menor que se beneficia do movimento. Tudo isso sem subsídio, sem renúncia fiscal, sem programa de fomento, sem BNDES financiando expansão a juro de pai para filho. Pelo contrário, paga imposto pesado em cada jurisdição em que opera, sustenta o aparato estatal que vive dizendo que é ele quem gera empregos. A piada se conta sozinha, mas o jornalismo econômico finge não entender.

Então quando a recomendação sobe e o papel reage, o que está sendo precificado não é apenas balanço, projeção de margem ou expansão para a Ásia. Está sendo precificada, ainda que ninguém ali tenha consciência filosófica disso, a vantagem permanente que a liberdade de escolha tem sobre qualquer arranjo planejado. Continuará subindo enquanto deixarem a empresa operar. No dia em que algum gênio resolver regular o preço do café com leite em nome da justiça social, anotem a data. Será o início do fim de mais um produto que funcionava, derrubado por quem nunca produziu nada além de relatório.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.