A cena se repete com a monotonia de um ritual religioso. A Passage Bio acorda, o mercado abre, a TD Cowen corta a recomendação para neutro, e o gatilho não foi um ensaio clínico malsucedido, não foi um balanço desastroso, não foi fraude contábil descoberta por um analista insone. Foi uma notícia vinda da FDA, a agência federal americana que regula remédios, e que tem nas mãos o poder de transformar uma molécula promissora em pó de arquivo morto com um simples despacho administrativo. Quer dizer, o valor de uma empresa inteira, anos de pesquisa, capital privado apostado em ciência de ponta, tudo isso depende do humor de um burocrata que nunca pipetou nada na vida.

Olha, é importante entender o arranjo. O mercado farmacêutico americano não é livre, nunca foi. É um dos setores mais regulados do planeta, onde o custo médio de aprovar um único medicamento passa de dois bilhões de dólares e a jornada até a prateleira leva mais de uma década. Quem tem fôlego financeiro para esse calvário? As gigantes consolidadas, que já absorveram o custo regulatório e o transformaram em fosso competitivo. Quem não tem? As biotechs pequenas como a Passage, que dependem de cada despacho da agência como um náufrago depende do próximo pedaço de madeira flutuando. A regulação que diz proteger o consumidor, na prática, protege o incumbente do desafiante.

Me diz uma coisa, quando a notícia da FDA chega e o analista rebaixa, o que exatamente foi destruído ali? Não foi valor criado, foi valor percebido. A molécula continua sendo a mesma molécula, as pessoas doentes que poderiam se beneficiar dela continuam doentes, os cientistas continuam sendo os mesmos cientistas. O que mudou foi a expectativa sobre a permissão. E essa expectativa é o ativo mais importante do balanço de qualquer biotech americana, mais do que patente, mais do que pipeline, mais do que caixa. É a permissão. Um sistema em que a permissão vale mais do que a ciência é um sistema doente na raiz.

Siga o dinheiro, que é onde a história sempre se revela. Os grandes laboratórios farmacêuticos mantêm exércitos de lobistas em Washington, financiam campanhas dos dois partidos com a mesma elegância, e contratam ex-diretores da FDA pagando salários que o serviço público jamais pôde oferecer. A porta giratória entre agência reguladora e indústria regulada funciona tão bem que ninguém mais tem vergonha de admitir. A pequena Passage Bio não tem esse arsenal. Ela joga o jogo pelas regras oficiais, enquanto os gigantes jogam pelas regras reais. E quando a notícia sai, o mercado, que sabe exatamente como o jogo funciona, precifica a diferença em segundos.

O mais curioso é o discurso de fundo que sustenta esse arranjo. Dizem que sem a agência federal, o mercado seria um faroeste de charlatães vendendo água com açúcar como cura do câncer. Como se antes de 1906 a humanidade fosse uma caverna de crendices e depois tivesse descoberto o penicilina por decreto. A verdade é que mercados livres desenvolvem seus próprios mecanismos de reputação, certificação privada, seguros de responsabilidade, vigilância cruzada entre competidores. O monopólio estatal da aprovação não nasceu para proteger o paciente, nasceu para organizar o poder. E, uma vez organizado, esse poder jamais volta para trás sem luta.

A Passage Bio vai sobreviver ou não vai, e o mercado continuará a oscilar ao ritmo dos comunicados oficiais, dos rebaixamentos de analistas que leem os comunicados, e dos fundos que operam na milésima de segundo seguinte. Mas enquanto alguém acreditar que isso é capitalismo, que isso é livre mercado, que isso é a mão invisível funcionando, estaremos confundindo o espetáculo com a substância. O capitalismo real exigiria que a ciência competisse com a ciência, não que despachos competissem com despachos. O que temos é outra coisa. Tem nome, e não é bonito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.