A TD Cowen baixou o preço-alvo da Eastern Bankshares alegando pressão nos custos de depósito, e essa frase aparentemente burocrática esconde a confissão mais honesta que sai de Wall Street há anos. Quando o analista diz "custo de depósito", ele está dizendo que o banco precisa pagar mais caro para que o correntista deixe o dinheiro parado ali em vez de migrar para um título do Tesouro que rende mais. E por que o título rende mais? Porque o banco central precisou subir os juros para apagar o incêndio que ele mesmo ateou anos atrás, quando jogava dinheiro no mercado como se fosse confete em desfile de carnaval.
Olha, a mecânica é simples e brutal. Banco regional vive de uma diferença, capta barato dos depositantes e empresta caro aos tomadores. Durante a década de juro zero, captar foi de graça, literalmente, porque o correntista não tinha para onde correr. Agora que existe rendimento decente em letra do Tesouro americano, o depositante acordou e exige remuneração. O banco, do outro lado, segue carregando carteiras de empréstimos e títulos contratados a taxas ridículas da era anterior, papel comprado a 2% que hoje vale uma fração no mercado secundário. A margem some, o lucro derrete, e o analista corta o preço-alvo. É a aritmética cobrando o que a política monetária prometeu que nunca aconteceria.
Quer dizer, o engraçado é que ninguém quer pronunciar a palavra exata. Fala-se em "ambiente desafiador", em "pressão competitiva", em "normalização da curva". Tudo eufemismo para descrever o que aconteceu com o Silicon Valley Bank, com o First Republic, com o Signature, e com a fila de bancos médios americanos que seguem operando em estado terminal mascarado por contabilidade criativa autorizada pelo Federal Reserve, que mudou regra em 2023 para fingir que prejuízo de marcação a mercado não existe se o banco prometer segurar o papel até o vencimento. Brilhante, não? Quebrou o termômetro porque a febre incomodava.
Me diz uma coisa, quem ganha nessa história e quem paga? Quem ganhou foi o governo americano, que financiou déficit trilionário emitindo dívida que os bancos compraram com depósito barato. Quem ganhou foi o aparato federal que se acostumou a gastar como se a impressora não tivesse limite. Quem paga é o aposentado da Nova Inglaterra que tem conta na Eastern, é o pequeno empresário que vai encontrar crédito mais escasso e mais caro, é o acionista que vê papel encolher, e é o contribuinte que vai bancar o próximo socorro travestido de "facility de liquidez emergencial". A trilha do dinheiro nunca mente, basta ter paciência para segui-la até o fim.
O caso Eastern Bankshares não é exceção, é sintoma. Toda vez que uma autoridade monetária decide brincar de planejador onisciente, fixando o preço do dinheiro por decreto e inundando o sistema com liquidez fabricada, o resultado é sempre o mesmo, capital alocado em projetos que jamais deveriam existir, balanços bancários inflados com ativos podres, e uma ressaca que dura mais tempo que a festa. A diferença é que a festa beneficia os de dentro, e a ressaca é socializada entre os de fora. Funciona assim desde que inventaram o banco central, e seguirá funcionando enquanto o público acreditar que existe algo chamado almoço grátis monetário.
Os bancos regionais americanos são o canário na mina de carvão de uma política monetária que durante quinze anos confundiu manipulação com prosperidade. Cada corte de preço-alvo como esse da TD Cowen é um pequeno pedaço de verdade vazando pelas frestas de um sistema construído sobre a pretensão de que se pode controlar o ciclo econômico abolindo o ciclo econômico. Não se pode. A conta sempre chega, e quem garantiu que ela nunca chegaria já se aposentou com bônus, ou foi promovido para o Tesouro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.