A TD Cowen reduziu o preço-alvo das ações da HCA Healthcare alegando volumes respiratórios fracos, e a frase, lida com calma, é uma confissão escandalosa do modelo. Traduzindo do dialeto de relatório para o português dos mortais, significa o seguinte, menos gente com bronquite, menos gente intubada, menos gente desesperada na emergência, portanto receita pior, portanto ação cai. O paciente saudável é prejuízo. Pare um instante e deixe a frase fazer o estrago que precisa fazer.
Quem acompanha o setor de saúde americano há tempo sabe que a HCA é gigante justamente porque domina o jogo das internações pagas por seguradoras e pelo governo federal via Medicare e Medicaid. Cada paciente respiratório é uma cadeia de procedimentos faturáveis, exame, internação, UTI, medicação cara, alta com retorno. Quando a temporada de gripe é fraca, o que o analista vê não é um povo melhor de saúde, é um fluxo de caixa em queda. O incentivo está invertido na origem, e ninguém precisa ser gênio para perceber que sistema desenhado assim vai sempre torcer, ainda que silenciosamente, para que você adoeça na medida certa.
Olha, o erro de quem assiste essa cena de longe é achar que o problema é o capitalismo na saúde. Não é. O problema é o casamento entre rede privada gigante e dinheiro público abundante, com tabela de reembolso definida em Washington, regulação que protege os incumbentes contra novos entrantes, e seguradoras que funcionam como intermediárias obrigatórias por força de lei. Isso não é mercado livre, isso é um arranjo corporativista em que o lucro é privado, o cliente é cativo e o financiador final é o contribuinte. Quando você ouve falar em sistema de saúde dos Estados Unidos, lembre que metade do dinheiro que circula ali sai do bolso do governo. Não existe preço de mercado num lugar onde metade da demanda é fabricada por subsídio.
O que não se vê neste relatório é mais interessante do que o que se vê. Não se vê o pequeno hospital comunitário que quebrou porque não conseguiu negociar com a seguradora nos mesmos termos. Não se vê a clínica independente que foi engolida por uma rede gigante porque sozinha não dava conta da papelada regulatória. Não se vê o médico que virou empregado de holding porque consultório próprio virou inviável. Cada vez que o regulador aperta uma exigência nova em nome da segurança do paciente, ele entrega de bandeja mais um pedaço do mercado para quem já tem departamento jurídico de cem advogados. A concentração não é falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.
E aqui o Brasil precisa parar de fingir que isso é problema dos outros. Estamos caminhando para o mesmo arranjo, com a diferença de que somos mais pobres e menos sofisticados. Operadora de saúde gigante comprando hospital, hospital comprando rede de laboratório, laboratório fechando contrato exclusivo com plano, plano lobiando ANS para mudar regra que atrapalha concorrente menor. O resultado conhecido é mensalidade que sobe acima da inflação todo ano, atendimento que piora, e o sujeito da classe média descobrindo que o plano caro que pagou a vida inteira não cobre o procedimento de que ele precisa. Enquanto isso, o SUS, que era para ser a rede de proteção, é tratado como depósito de quem o sistema privado descartou.
A lição que o relatório da TD Cowen entrega de graça, sem querer, é que estrutura de saúde que precisa de gente doente para crescer está condenada moralmente antes de estar condenada economicamente. Quando o balanço de uma empresa melhora porque a gripe foi mais agressiva, e piora porque o inverno foi clemente, o que está sendo monetizado não é cura, é dependência. E povo dependente, em qualquer área da vida, sempre acaba pagando caro pela ilusão de que alguém está cuidando dele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.