A TD Cowen baixou o preço-alvo da Lowe's para US$ 235, citando "riscos nas vendas comparáveis", e a manchete circula como se fosse revelação profunda. Quer dizer, depois de anos jogando trilhões de dólares no ventilador via estímulo pandêmico, depois de o Federal Reserve manter juros artificialmente baixos por uma década inteira inflando o mercado imobiliário, depois de a inflação real ter corroído o poder de compra do americano médio em proporções que nenhum índice oficial captura honestamente, agora descobrem que a varejista de material de construção pode vender menos. Que perspicácia. Que análise. Vale o salário que pagam ao analista.

Olha, o roteiro é sempre o mesmo e segue uma coreografia previsível. Banco central imprime dinheiro a rodo durante a emergência, pessoas correm para reformar a casa porque estão presas dentro dela, demanda artificial infla as ações da Lowe's e da Home Depot a múltiplos absurdos, executivos batem metas, recebem bônus polpudos, vendem suas próprias ações no topo, e quando a maré baixa o analista de banco aparece com cara de paisagem para "ajustar o preço-alvo". Ninguém pergunta de onde veio aquele boom. Ninguém pergunta quem lucrou na subida. Ninguém pergunta por que o consumidor agora está sem fôlego. Pergunta-se apenas qual o novo preço-alvo, como se fosse meteorologia e não engenharia financeira.

Me diz uma coisa, o que se vê é a manchete sobre a Lowe's. O que não se vê é o americano da classe trabalhadora pagando aluguel quarenta por cento mais alto que há cinco anos, parcelando supermercado no cartão, adiando a troca do telhado porque o cheque do mês acabou no posto de gasolina. A reforma residencial não evaporou por mistério econométrico. Ela morreu porque a renda real do trabalhador foi confiscada silenciosamente pela impressora de dinheiro do governo federal, e o nome bonito desse confisco é "política monetária acomodatícia". Bonito como nome de remédio que mata o paciente.

E siga o dinheiro, que é onde a coisa fica interessante. Quem ganhou com a bolha da reforma pós-pandemia? Os grandes acionistas institucionais, os fundos que compram em massa, os executivos com opções de compra premiadas. Quem perde agora? O pequeno investidor que entrou no topo acreditando nos relatórios eufóricos das mesmas casas de análise que hoje cortam o preço-alvo. A TD Cowen estava bullish quando precisava estar bullish para o sell-side funcionar. Agora está cautelosa quando a cautela já não custa nada além de tinta de impressora. A função do analista de banco grande nunca foi prever o futuro, foi legitimar o presente que convém ao patrão.

O fenômeno é estrutural e nada tem de novo. Toda vez que se cria liquidez artificial, algum setor da economia real se torna o protagonista temporário de uma narrativa de crescimento inevitável. Foram as ferrovias no século dezenove, foram as pontocom no fim do vinte, foi o subprime em dois mil e oito, foi a reforma residencial em dois mil e vinte e um. Os personagens mudam, o enredo é idêntico. Dinheiro fácil cria atividade fantasma, atividade fantasma cria expectativa de lucro permanente, expectativa de lucro permanente cria múltiplos absurdos, e múltiplos absurdos terminam exatamente onde sempre terminaram desde que o mundo é mundo, num corte de preço-alvo discreto numa segunda-feira qualquer.

Por isso a notícia, lida com olhos abertos, não é sobre a Lowe's. É sobre o sistema inteiro que produz Lowe's superavaliadas, analistas covardes, consumidores empobrecidos e relatórios que descobrem o óbvio meses depois de o óbvio ter ficado óbvio. O preço-alvo de hoje é o atestado de óbito da bolha de ontem assinado pelo médico que ajudou a envenenar o paciente. Quem quiser ver a economia de verdade, olhe para a fila do supermercado, não para a planilha do trader.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.