A notícia chega embrulhada em papel de presente corporativo. TD Cowen reduziu o preço-alvo das ações da Tyler Technologies invocando "preocupações com reservas", aquele eufemismo elegante que o mercado usa quando quer dizer que o pipeline de contratos futuros não está tão gordo quanto prometiam. Só que por trás do jargão analítico há uma história bem mais interessante, e é a história que ninguém em Wall Street gosta de contar em voz alta. A Tyler não é uma empresa de tecnologia no sentido honesto da palavra. É uma fornecedora quase monopolista de software para o setor público americano, prefeituras, tribunais, departamentos de trânsito, secretarias de educação, a burocracia inteira rodando em cima de licenças dela. Quando o analista fala em reservas, está falando do ritmo com que o contribuinte americano continuará assinando cheques compulsórios.

Olha, existe uma categoria de negócio que o capitalismo de verdade não produziria jamais. Empresas cujo faturamento não depende de agradar consumidor, não depende de inovar mais rápido que o concorrente, não depende sequer de entregar produto bom. Depende de ganhar licitação, de cultivar relacionamento com secretário municipal, de ter ex-funcionário público no board, de contratar o lobista certo em Washington. A Tyler é o exemplo quase didático disso. Cresce há décadas num ritmo que empresa privada competindo em mercado livre acharia irreal, e cresce porque o cliente dela não gasta dinheiro próprio. Gasta o seu.

Quer dizer, siga a trilha do dinheiro e o desenho fica constrangedor. O cidadão da Flórida, do Texas, de Ohio paga imposto municipal. O município repassa para a Tyler via contrato plurianual blindado por custo de migração absurdo. A Tyler reporta receita recorrente previsível, o analista de Wall Street precifica isso como se fosse SaaS premium, o acionista embolsa o múltiplo inflado, e o coitado do contribuinte continua esperando a certidão de nascimento sair em quinze dias úteis. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais anestesiada, porque ninguém grita, ninguém protesta, ninguém percebe. A pilhagem é legal, automática, trimestral.

E aí chega o analista da TD Cowen, franze a testa para o livro de reservas e sinaliza que talvez o jorro esteja desacelerando. Por que desaceleraria? Porque até a capacidade do Estado de contratar software caro tem limite, e esse limite se chama déficit fiscal explodindo, prefeituras quebradas, orçamentos municipais estrangulados pela inflação que o próprio governo fabricou imprimindo dinheiro. A festa do software estatal depende de um anfitrião solvente, e o anfitrião está endividado até o último fio de cabelo. Quando o cliente é o Leviatã e o Leviatã está gordo demais para caminhar, o fornecedor do Leviatã começa a sentir o tremor no chão antes de todo mundo.

Me diz uma coisa, existe métrica mais honesta sobre o tamanho do Estado americano do que o valuation das empresas que vivem de vendê-lo para si mesmo? A Tyler vale dezenas de bilhões porque o aparato público virou um organismo tão vasto, tão ramificado, tão insaciável por licença de software, contrato de manutenção e módulo adicional, que dá para construir um império de capital aberto em cima disso. O mercado livre nunca produziria uma Tyler, porque num mercado livre o cliente pode trocar de fornecedor, pode quebrar, pode decidir fazer sozinho, pode simplesmente parar de comprar. O cliente da Tyler não pode nada disso, ele é prisioneiro do contrato, do legado, do código proprietário e da própria inércia burocrática.

O corte de preço-alvo é pequeno, o barulho é técnico, o investidor distraído nem notou. Mas quem lê nas entrelinhas percebe o recado. Quando até os analistas mais otimistas começam a suspeitar que a mamata fiscal tem fundo, é porque a maré está baixando, e quando a maré baixa a gente descobre quem estava nadando pelado. A Tyler Technologies não é uma empresa de tecnologia. É um termômetro da gastança pública americana. E o termômetro acaba de piscar amarelo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.