A cena se repete com a regularidade de um relógio quebrado que acerta duas vezes ao dia. Um banco de investimento reitera a recomendação de compra de uma ação que subiu ladeira acima por dois anos seguidos, e no mesmo parágrafo, quase pedindo desculpas, admite que existem preocupações com o crescimento. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, isto significa o seguinte: continuem comprando, mas tenham cuidado, porque a música pode parar a qualquer momento e nós não queremos ser responsabilizados quando isto acontecer. É a versão financeira do garçom que diz que o prato está delicioso enquanto te empurra a conta.

A Broadcom virou símbolo de uma era em que basta colar a sigla AI no balanço para que a ação dobre, triplique, decuple. A empresa fabrica chips de verdade, é fato, e tem contratos robustos com hyperscalers que estão queimando capital como se 2008 fosse uma lenda urbana. Mas o ponto que ninguém quer encarar é simples: o boom de capex em inteligência artificial não é demanda orgânica financiada por lucros operacionais, é demanda induzida por liquidez monetária despejada na economia americana há mais de uma década e por uma narrativa que precisa se manter de pé para justificar avaliações que só fazem sentido em um cenário de crescimento perpétuo a taxas exponenciais.

Quem segue o dinheiro encontra o de sempre. Os mesmos fundos que empilharam posições em meia dúzia de nomes ligados ao tema da IA são os que financiam relatórios otimistas, contratam analistas que produzem teses construtivas, e quando o vento muda, são os primeiros a sair pela porta dos fundos enquanto o varejo descobre pelo Twitter que o preço-alvo foi cortado pela metade. O ritual é antigo, mudou só o produto. Já foi tulipa, já foi ferrovia, já foi ponto-com, já foi imóvel subprime. Agora é silício com promessa de inteligência sobrenatural.

Quer dizer, não existe inteligência mais artificial do que a de um mercado que finge não enxergar que múltiplos de quarenta, cinquenta vezes lucros futuros estimados não sobrevivem ao primeiro trimestre em que o crescimento sequencial desacelera. Os próprios analistas que recomendam compra estão dizendo, com todas as letras, que a tese depende de execução perfeita, de demanda que não pisca, de um cenário macroeconômico em que o Federal Reserve corta juros sem que isto signifique recessão. É pedir para o tempo melhorar enquanto se planta no deserto.

O que não se vê neste arranjo é o capital sendo desviado de aplicações produtivas reais para alimentar uma corrida especulativa em torno de promessas tecnológicas cuja monetização efetiva ninguém ainda demonstrou de forma sustentável. Cada dólar empilhado em chip de IA é um dólar que não foi para infraestrutura, para indústria de base, para pequenos negócios que geram empregos e renda distribuída. Mas isto é o tipo de custo invisível que não aparece em nenhum relatório de research, porque medir o que deixou de existir exige honestidade intelectual que o mercado terceirizou há tempos.

Olha, a lição mais cara da história financeira é também a mais simples: árvore não cresce até o céu, e toda vez que alguém te garante o contrário, está vendendo alguma coisa. A Broadcom pode continuar entregando resultados sólidos por mais alguns trimestres, e provavelmente vai. Mas o dia em que o crescimento desacelerar de verdade, e este dia chega para todas as empresas sem exceção, o ajuste será proporcional ao tamanho da expectativa embutida no preço. E neste caso, a expectativa embutida hoje é a de uma empresa que conquistou o mundo antes mesmo de provar que pode mantê-lo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.